Por que decidi escrever

Artigo de autor desconhecido.
Por que decidi escrever

Meu imaginário literário foi moldado sobretudo pelo cinema e pela televisão. Isso teria sido uma tragédia se eu não tivesse entendido, ainda que tardiamente, a importância de ler os clássicos. Não os li todos, mas li o suficiente para compreender a abissal diferença entre o que hoje se consome como literatura, o que ela foi no passado e o que é regurgitado como arte nos meios de entretenimento de massa.

Vivemos numa sociedade em que animes são analisados por críticos especializados como se fossem obras de arte e não mero entretenimento infantojuvenil. Até bem pouco tempo atrás, nos anos 1980, isso seria considerado um absurdo: desenhos animados e quadrinhos, salvo raras exceções experimentais criadas especificamente para tal fim, não eram consumidos por adultos. Eu deixei de assistir desenhos animados antes mesmo do advento do anime no Brasil. Os únicos que consumi foram Pirata do Espaço e Patrulha Estelar — para os conhecedores, Groizer X e Uchū Senkan Yamato, e eu não tinha muito mais do que dez anos de idade na primeira metade da referida década.

Mais ou menos neste mesmo período li a coleção completa de Júlio Verne, Tom Sawyer, Reinações de Narizinho, Meu Pé de Laranja Lima e outros que já não recordo, pois não me marcaram o suficiente para permanecer na memória. Desses menos importantes posso citar O Tronco do Ipê, de José de Alencar; dele só guardo o título e um vago sentimento melancólico que restou depois da leitura, antes que a história se dissolvesse no esquecimento.

Download “The Iconic Space Battleship Yamato Ready for Battle …O ponto é que, para uma criança de classe média baixa da geração X, a tela não exercia nenhum fascínio real. Ela simplesmente não estava disponível com facilidade; uma Telefunken colorida não tinha força suficiente para competir com as ruas da pequena cidade onde cresci. Isso me livrou da aculturação precoce e permitiu que o amor pela realidade se arraigasse em mim de forma permanente. Embora os livros tenham sido posteriormente substituídos pelos episódios semanais dos seriados de TV, pelos filmes do cinema e pelas histórias em quadrinhos, o fascínio artificial dessas mídias nunca suplantou esse amor profundo pela realidade. De certo modo, tal material mais me frustrou emocionalmente do que me alimentou culturalmente. Hoje acredito que foi criado precisamente para gerar esse efeito nos indivíduos que o consumiam. E foi precisamente essa frustração que me compeliu a escrever este livro.

Muito tempo depois, quando adquiri o entendimento necessário para perceber as diferenças qualitativas entre boa e má literatura, entre gênios e medíocres como eu, e entre amadores e profissionais — muitos destes medíocres, mas profissionais —, percebi que um abismo se abriu entre aquela frustração inicial e o caos que hoje se instalou nas artes literárias, sobretudo no audiovisual. Hoje já não se trata mais de o mocinho ser fraco, da justiça não ser justa ou dos dilemas morais serem ridículos e não retratarem dilema algum — do ponto de vista de um personagem que jamais deveria nutrir tal dúvida, caso o autor tivesse a mínima intenção de oferecer uma experiência verossímil. Não. Estamos vivendo a completa loucura e a insensatez em todos os níveis possíveis e imagináveis. A bela tese da estimulação contraditória já não faz mais sentido, pois já vivenciamos o resultado concreto dessa agenda: ela falhou comigo, mas funcionou — e com sobras — em pelo menos duas gerações posteriores à minha.

Posso afirmar que consumi, como espectador real e não como fã, quase tudo o que surgiu no cinema, na televisão e nos quadrinhos desde o final dos anos 1980 até hoje. Da literatura moderna, porém, li quase nada durante boa parte desse período, pois, como já mencionei, concentrei-me primeiro em ler os clássicos. Posso dizer também que, a cada ano, diminuía a quantidade de obras atuais que entravam na minha lista e crescia o número de obras antigas. Para se ter uma ideia, passei praticamente toda a década de 1990 assistindo a filmes dos anos 1970 e 1960, e os anos 2000 assistindo a filmes dos anos 1950 e anteriores, deixando a literatura de lado depois de ler o que acreditava ser o suficiente das obras mais relevantes. Foi nesse período que li Thomas Mann (A Montanha Mágica), Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo), Orwell (1984) e Lovecraft (Nas Montanhas da Loucura), de onde tirei a inspiração para o título deste primeiro volume da saga do Antediluviano.

Na minha opinião, li pouco. Mas não creio que houvesse condições de ler mais do que li, dado o tempo desperdiçado no ensino acadêmico e a carga horária de trabalho que precisei cumprir quando iniciei minha vida profissional. Se somarmos o tempo desperdiçado com entretenimento de massa, o ensino acadêmico, o tempo demandado pelo trabalho, o lazer necessário para manter o mínimo de sanidade mental neste país e ainda juntarmos o tempo dedicado a estudos e atividades voluntárias — tudo aquilo a que nos entregamos por puro amor —, há de se convir que é praticamente impossível para um brasileiro medíocre, de classe social inferior, manter um padrão aceitável de leitura, razão pela qual fiz com que minha prole lesse tudo que tivesse de ler antes dos vinte anos de idade.

Voltei a ler em 2010 e foi então que decidi experimentar algo moderno e alguns escritores brasileiros. A literatura brasileira nunca me apeteceu verdadeiramente, exceto o que li na infância, mas foi nessa década que reli, agora com mais entendimento e sem o peso da obrigação escolar, obras como Feijão e o Sonho, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, O Cabeleira e O Albatroz, de José Geraldo Vieira, entre outras que acabei não terminando.

Confesso que até hoje não li Tolkien e provavelmente não lerei, assim como não consegui terminar O Homem que Era Quinta-Feira, de Chesterton. Sim, é vergonhoso não ter lido Chesterton como ele merece, mas não posso negar que os personagens daquele livro me pareceram excessivamente caricatos. Até mesmo em A Montanha Mágica enxerguei caricatura na psicologia de certos personagens — ainda que Chesterton, pelo menos, o tenha feito de caso pensado. Antes esse tipo de coisa me incomodava menos e eu conseguia abstrair; hoje, porém, não me é mais possível ignorar certos detalhes. Não sei o quanto esse fenômeno contribuiu para o fato de os jovens de hoje parecerem caricaturas dos personagens de animes e jogos que consomem. Evidentemente a cultura de massa foi mil vezes mais relevante, mas esses escritores, de alguma forma, influenciaram as elites da indústria do entretenimento que posteriormente moldaria nossa sociedade.

Então, por que resolvi escrever, sendo um medíocre? Simplesmente porque não há mais nada para ler ou assistir — sobretudo assistir. É impressionante a desconexão entre as histórias, os diálogos e a psicologia dos personagens com a realidade. Não resta a menor sombra de verossimilhança em nada do que escreveram ou filmaram nos últimos dez anos. E não falo aqui de politização ou ideologismo nas obras; falo de verossimilhança pura e simples. Não tenho como mensurar a dimensão do dano psicológico causado. O que acontece quando duas gerações inteiras perdem a referência de como se portar numa luta, de como uma guerra afeta o cotidiano e a psique das pessoas, de como se dá uma argumentação numa discussão verbal, de qual é a reação humana diante de um perigo iminente, de como agir diante de um dilema moral real — ou mesmo o que seria um dilema moral real —, de como inimigos mortais se comportam e se relacionam. Nada mais faz sentido em nenhum livro que comecei a ler (e comecei muitos), nas séries que deixei de acompanhar e nos filmes que não consegui passar dos primeiros quinze minutos durante este curto período de tempo.

Ghost in the Shell | Cyberpunk and Female Body AutonomySinceramente, para o meu eu pré adolescente dos idos de 1980, depois de intermináveis sessões de homenagem a Druuna, Serpieri faz mais sentido que Akira e Ghost in the Shell, com seus diálogos expositivos intermináveis e burros, sua arte inferior, sua pornografia platônica e sua arrogante pretensão de querer ser mais do que é: um desenhinho chinfrim feito para eternos adolescentes que se masturbam até hoje.

O Antediluviano pode ser criticado pelas mais variadas razões, técnicas ou não, mas não se poderá acusá-lo de estar desconectado da realidade. Seus personagens são radicalmente humanos, suas cenas são tediosamente verossímeis — descontada a suspensão de descrença necessária —, os diálogos são verdadeiros e factíveis, e meu compromisso é com a coerência total da obra: o mal é mau, o bem é necessariamente bom e as escolhas geram consequências. Sem nudez, sem pornografia, sem nada que seja dispensável para contar a história de forma honesta. Sem nenhum resquício de estimulação contraditória e voltado para o público que deve consumir esse tipo de literatura, e não para adultos, ainda que estes possam talvez desfrutá-lo satisfatoriamente.


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