O mercado americano tem tudo para corrigir mais
O mercado americano tem tudo para corrigir mais
Em três pregões, o mercado americano contou a história inteira da eleição. Na quarta-feira, subiu forte. Na quinta, viveu o pior dia desde abril de 2025. Na sexta, repicou. No saldo da semana, o S&P 500 caiu 2,7% e o Nasdaq, 3,4%, a quarta semana seguida de perda do índice de tecnologia. Mas é a sequência dos três dias, e não o saldo, que mostra o que o mercado está precificando.
No dia seguinte à eleição, o mercado subiu por dois motivos. O primeiro foi a aceitação do resultado por Trump. Havia o receio de uma contestação, que arrastaria o país para semanas de incerteza institucional. Trump disse ao New York Times que estava “absolutamente disposto a aceitar” o resultado e que trabalharia com os democratas. A dúvida acabou ali.
O segundo motivo foi o resultado prático das urnas: um governo travado. Com os democratas no controle das duas casas do Congresso e Trump com a caneta do veto, nenhum dos lados consegue expandir gastos nem aprovar grandes mudanças. Os cheques de US$ 5 mil prometidos por Trump, por exemplo, dificilmente saem do papel. Para o mercado, impasse é previsibilidade: nada de novo pacote fiscal, nada de nova rodada de déficit. O Dow subiu 3%, o melhor dia pós-eleição desde 1982, e as gigantes de tecnologia dispararam: Amazon perto de 8%, Apple quase 7%, Alphabet mais de 6%.
Na quinta-feira, o humor virou. O gatilho foram declarações agressivas de democratas contra data centers, especialmente no Texas. A governadora eleita, Gina Hinojosa, prometeu uma moratória sobre todas as aprovações de data centers, que ela mesma chamou de proibição, até que a legislatura aprove novas regras: mão de obra sindicalizada obrigatória, restrições ao uso de água e fim dos incentivos fiscais. Os democratas eleitos para os governos da Geórgia e de Ohio também defenderam pausas ou moratórias na campanha.
A pausa no Texas, diga-se, começou com Greg Abbott, em agosto, como auditoria da rede elétrica e do uso de água, com relatório previsto para dezembro. A diferença é de natureza. A auditoria tinha data para acabar. A moratória de Hinojosa só acaba quando a legislatura, que se reúne em janeiro, aprovar a agenda dela. E o peso do estado é enorme: segundo a SemiAnalysis, o Texas responde por perto de 30% da capacidade de data centers que os Estados Unidos devem adicionar em 2028. O Goldman Sachs estima que cerca de 45% da capacidade planejada no país está exposta a algum tipo de restrição.
O resultado foi um massacre. O Nasdaq caiu 5,5% e entrou em correção. O S&P 500 perdeu 4,4%, cerca de US$ 2,9 trilhões em valor de mercado, a maior perda diária da história do índice, segundo a Dow Jones Market Data. O índice de semicondutores despencou mais de 12%, e a Nvidia, cerca de 9%.
Mas a queda não foi igual para todos, e é aí que está a leitura mais importante. O mercado passou a duvidar da alavancagem dos projetos de data center, sobretudo dos mais endividados. A CoreWeave, símbolo das chamadas neoclouds, caiu 9% na quinta e cerca de 18% em dois dias. A empresa carrega perto de US$ 51,6 bilhões em dívida contra US$ 6,4 bilhões em caixa. No segundo trimestre, pagou US$ 640 milhões em juros, cinco vezes o lucro operacional ajustado de US$ 128 milhões. Ou seja, é um modelo que só fecha a conta se cada novo cluster ficar pronto e começar a faturar no prazo. Uma moratória no Texas é exatamente o tipo de atraso que esse balanço não suporta.
As gigantes caíram bem menos. Meta perdeu 3,4%, Microsoft 2,8%, Amazon 2,2% e Alphabet 1,6%. Amazon e Alphabet ainda fecharam os dois dias no positivo. O motivo é que o mercado entende que regulação pesada protege quem já está dentro. Laura Martin, da Needham, resumiu: barreiras regulatórias mais altas entrincheiram os incumbentes. A própria presidente da Meta, Dina Powell McCormick, disse que construir novos data centers nos Estados Unidos vai ficar mais difícil, mas que expandir os projetos existentes fica mais fácil. Quem já tem capacidade instalada, caixa e licença aprovada atravessa a moratória. Quem depende de dívida para erguer o próximo galpão fica pelo caminho.
Vejam só a ironia. A mesma esquerda que passou anos prometendo “empregos do futuro” e jurando enfrentar as big techs acaba de entregar a elas a melhor proteção contra a concorrência: a regulação. Quer dizer, então, que o combate aos monopólios começa fechando a porta para quem quer competir com eles?
Na sexta-feira, veio o repique. O Nasdaq subiu 1,1%, o S&P 500, 0,3%, e o Dow ainda caiu 0,5%. O relatório de emprego ajudou: 165 mil vagas em outubro, contra cerca de 65 mil esperadas, e desemprego em 4,1%. Hinojosa também tentou acalmar o mercado, dizendo que projetos já licenciados poderão terminar a obra. Repare no que ela não disse: nada sobre o que ainda não foi aprovado.
Não acredito na retomada de uma franca tendência de alta tão cedo. O repique pode até continuar na semana que vem, mas o mercado tem tudo para corrigir mais no médio prazo. O emprego forte mantém viva a possibilidade de alta de juros pelo Fed em dezembro, o que pesa justamente sobre quem vive de dívida. O Nasdaq 100 segue em correção desde a máxima de 6 de outubro. A dúvida sobre a alavancagem das neoclouds não se resolve em um pregão. E a moratória no Texas só se define na legislatura, a partir de janeiro, o que deixa o setor pelo menos dois meses sem saber se o principal estado para a infraestrutura de IA vai reabrir.
O veredito é simples. O mercado subiu com o impasse, caiu com a ameaça aos data centers e agora vai separar quem tem balanço de quem tem dívida. O repique de sexta tem cara de respiro, não de reversão, e há uma boa chance de o mercado ter iniciado um processo corretivo mais longo.
Os democratas não criaram a bolha de IA, mas podem ter espetado o alfinete nesse balão. E, ao colocar entraves ao crescimento do setor mais dinâmico da economia, podem não apenas despertar os ursos, mas também presentear a China, que segue atrás no desenvolvimento da tecnologia que definirá as próximas décadas.
O objetivo parece ser explorar uma eventual crise na campanha de 2028 para eleger um presidente democrata. Mas o tiro pode sair pela culatra: eles podem acabar levando a culpa por uma correção que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Trump já está apontando o dedo.
Este texto é conteúdo editorial e não constitui recomendação de investimento.

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