Cadê o Sicário? O silêncio conveniente sobre o caso Vorcaro
No Brasil, escândalos recebem atenção proporcional à conveniência política. Quando atingem adversários, imprensa e políticos fazem barulho; quando chegam a ambientes menos convenientes, surgem cautela e silêncio.
Existe algo particularmente curioso no modo como determinados escândalos funcionam no Brasil. Quando surgem informações que podem ser utilizadas contra um adversário político, a imprensa e os políticos rapidamente transformam o assunto em uma espécie de cruzada nacional. São horas de televisão, editoriais, especialistas, indignação nas redes sociais, pedidos de investigação e parlamentares fazendo pronunciamentos inflamados. Quando o assunto começa a atingir ambientes menos convenientes, entretanto, parece surgir uma súbita necessidade de cautela, ponderação e silêncio. O caso envolvendo Daniel Vorcaro e o chamado “Sicário” é um bom exemplo dessa curiosa seletividade. Durante algum tempo, o nome esteve no centro das discussões. Depois, praticamente desapareceu. E o mais interessante é que as perguntas que justificaram a atenção inicial continuam existindo.
O chamado “Sicário”, identificado como Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apareceu nas investigações relacionadas ao caso Banco Master como uma figura associada a um núcleo que teria atuado no monitoramento de pessoas consideradas adversárias de Vorcaro. Também foram divulgadas mensagens atribuídas a Mourão nas quais ele relatava a Vorcaro ações relacionadas à retirada de conteúdos negativos sobre o banco da internet. Uma das mensagens que mais chamou atenção foi justamente “link derruba, mestre”.
O curioso é que, depois de uma explosão inicial de interesse, o assunto aparentemente perdeu espaço. E é justamente aí que começa a parte mais interessante da história. Porque o Brasil possui uma imprensa extremamente combativa quando o assunto é investigar os adversários políticos de seus grupos preferidos. Uma simples mensagem de WhatsApp pode virar manchete por vários dias quando ajuda a construir determinada narrativa. Uma fotografia pode ser tratada como evidência de relações obscuras. Uma conversa privada pode ganhar interpretações dignas de um thriller político. Dependendo de quem aparece no outro lado da mensagem, o país inteiro é convocado a exigir explicações. Entretanto, quando surgem suspeitas que envolvem pessoas poderosas e ambientes que não se encaixam perfeitamente na narrativa política predominante, aparece uma palavra mágica: cautela. É preciso “aguardar o andamento das investigações”. É preciso “não antecipar juízos”. Tudo isso é correto, evidentemente. O problema é que esse bom senso deveria existir também quando o investigado é alguém que a imprensa ou determinado grupo político considera inconveniente.
O mesmo vale para os políticos. É difícil levar a sério determinados discursos sobre combate à corrupção quando observamos a facilidade com que alguns parlamentares transformam qualquer investigação envolvendo seus adversários em espetáculo público e, ao mesmo tempo, desenvolvem uma impressionante capacidade de desaparecer quando as perguntas começam a atingir pessoas próximas. A indignação parece funcionar por proximidade ideológica.
Sicario numa maca
E existe ainda um aspecto particularmente incômodo: a morte de Sicário. Segundo as autoridades, ele morreu depois de atentar contra a própria vida enquanto estava sob custódia da Polícia Federal. Uma pessoa apontada como relevante em uma investigação morre antes de prestar todos os esclarecimentos que poderia prestar, é natural que existam perguntas sobre as circunstâncias do caso e sobre aquilo que a investigação conseguiu apurar antes de sua morte. Essas perguntas não deveriam desaparecer porque são desconfortáveis. Ao contrário, quanto mais sensível é o caso, maior deveria ser a preocupação em esclarecer os fatos e separar aquilo que está comprovado daquilo que é apenas suspeita.
O problema é que o jornalismo moderno parece ter desenvolvido uma preferência pelo escândalo instantâneo em vez da investigação persistente.
A explosão inicial rende audiência, cliques e engajamento; acompanhar o caso durante meses, verificar documentos, comparar versões e cobrar respostas é muito menos divertido. O resultado é uma espécie de ciclo de notícias em que o país passa alguns dias indignado com determinado assunto e depois simplesmente segue para o próximo. Quando uma história deixa de produzir audiência, ela desaparece.
Talvez seja isso que esteja acontecendo com o caso do “Sicário”. Talvez não exista absolutamente nada de extraordinário no desaparecimento do assunto das manchetes. Uma imprensa verdadeiramente interessada em esclarecer os fatos deveria continuar acompanhando o caso e mostrando ao público o que foi confirmado, o que foi descartado e o que permanece sob investigação.
E é justamente por isso que a pergunta continua sendo válida: por que quase ninguém mais fala no “Sicário”? Não porque devamos condenar Vorcaro ou qualquer outro investigado antecipadamente, mas porque o assunto levantou questões suficientemente sérias para justificar acompanhamento. Quem eram as pessoas monitoradas? Existia realmente uma estrutura organizada? Como funcionavam as supostas ações de retirada de conteúdo? Quem tinha acesso às informações? Qual era o papel de cada integrante do grupo? O que a Polícia Federal conseguiu comprovar? O que ainda está sendo investigado? E o que aconteceu com todas as informações que aparentemente tornaram o caso tão importante durante alguns dias?
Temos uma investigação, mensagens e suspeitas que ainda precisam ser esclarecidas, além de um personagem central que morreu antes de prestar todos os esclarecimentos que poderia. Isso não justifica teorias conspiratórias, mas exige que as investigações continuem, especialmente diante da evidente seletividade com que imprensa e políticos tratam escândalos conforme a conveniência política. Se monitorar adversários, tentar retirar conteúdo jornalístico ou abusar do poder é errado, deve ser errado independentemente de quem esteja envolvido. O “Sicário” não deve ser transformado em herói ou vilão, mas tampouco sua história deveria simplesmente desaparecer: se as acusações forem falsas, que sejam esclarecidas; se forem verdadeiras, que os responsáveis respondam. O que não podemos aceitar é o silêncio seletivo de quem se apresenta como defensor da transparência justamente quando a transparência deixa de ser conveniente.
Talvez o “Sicário” tenha simplesmente desaparecido das manchetes porque o ciclo de notícias mudou. Talvez. Mas, enquanto não houver respostas convincentes para as perguntas que o caso levantou, continuará sendo legítimo perguntar por que o assunto esfriou tão rapidamente. Afinal, se a imprensa e os políticos realmente acreditam que ninguém está acima da lei, deveriam ser os primeiros a querer descobrir exatamente o que aconteceu.
E, se não querem mais falar sobre isso, talvez a pergunta mais incômoda seja justamente essa: por quê?
Referências
- SBT News — “Sicário informa a Vorcaro que derrubou notícia contra Master na internet”. É a fonte para a mensagem “Link derruba, mestre”, atribuída a Mourão em conversa com Vorcaro, e para a informação sobre a retirada de conteúdo negativo.
- Agência Brasil — “PF conclui inquérito que apurou morte de Sicário, aliado de Vorcaro”. É uma fonte importante para a prisão, a tentativa de suicídio e a conclusão da PF sobre a morte de Mourão.
- Folha de S.Paulo — “PF: Vorcaro pagou sites de notícias e elogios em redes”. Traz informações posteriores da investigação sobre as relações de Vorcaro com veículos de comunicação e mensagens envolvendo o “Sicário”.
- Folha de S.Paulo — “PF diz que Sicário, do Master, cometeu suicídio na prisão”. Relata a conclusão da Polícia Federal de que Mourão cometeu suicídio sem participação de terceiros.
- A Pública — “Quem é quem na rede de Daniel Vorcaro: sicário, bicheiro, hackers e até agentes da PF”. É útil para contextualizar a estrutura investigada e as pessoas relacionadas ao círculo de Vorcaro.
- A Pública — “Sicário: o que significa o apelido do comparsa de Vorcaro”. Contextualiza a origem e o uso do apelido “Sicário” para Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão.
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