A Amante Despossuída
- Manifesto pela liberdade, comunidade e associação
- I. O indivíduo é soberano naquilo que é propriamente seu
- II. Onde surgem consequências comuns, surge uma comunidade legítima
- III. Comunidade é uma relação, não necessariamente um território
- IV. O poder deve subir, não descer
- V. Comunidades livres podem ser profundamente diferentes
- VI. A crítica racional marca o limite da autonomia comunitária
- VII. A consciência não pode ser delegada
- VIII. Somos falibilistas
- IX. A liberdade é uma direção histórica
- X. Mercados são mecanismos de descoberta
- XI. Mercado não é privilégio
- XII. A tecnologia pode ampliar o território da liberdade
- XIII. Dinheiro também pode ser uma escolha
- XIV. Liberdade exige possibilidade de saída
- XV. A forma de governo pertence também à comunidade
- XVI. Uma população livre conserva meios de defesa
- XVII. Justiça deve permanecer compreensível e próxima
- XVIII. Cooperação entre comunidades não exige um soberano comum
- XIX. Não existe uma política universal para todo problema
- XX. Não queremos um centro melhor
- Síntese
Manifesto pela liberdade, comunidade e associação
O grande poeta Vinicius de Moraes disse certa vez:
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
‘Liberta que serás também’
Mas a tradução de que mais gosto veio quase meio século depois, quando Beto Silva trouxe uma versão ainda mais carioca:
Liberdade, ainda que à tardinha.
A liberdade nunca surgiu pronta, perfeitamente definida e corretamente traduzida.
Cada época recebeu instituições, costumes, conhecimentos e tecnologias que tornavam algumas liberdades possíveis e outras difíceis até de imaginar. O progresso político não consiste em descobrir de uma vez a sociedade perfeita, mas em ampliar continuamente o espaço no qual coerção pode ser substituída por escolha, monopólio por concorrência, comando por cooperação e soberania por associação.
Não propomos uma sociedade final.
Propomos princípios pelos quais sociedades diferentes possam descobrir seus próprios caminhos.
I. O indivíduo é soberano naquilo que é propriamente seu
“I alone am morally responsible.”
— Robert A. Heinlein, 1966, The Moon Is a Harsh Mistress
Existe um domínio no qual a decisão pertence primordialmente ao indivíduo: sua consciência, suas ideias, sua residência e propriedade privada, suas relações voluntárias, sua comunicação e suas escolhas pessoais que não imponham dano relevante a terceiros.
Desaprovação não é dano.
Ofensa não é violência.
Divergência não cria, por si mesma, competência para coagir.
O fato de uma maioria desejar determinada conduta não lhe concede automaticamente jurisdição sobre a vida de quem discorda.
Henry David Thoreau levou esse princípio particularmente longe ao imaginar um Estado que reconhecesse o indivíduo como um poder superior e independente, do qual a própria autoridade estatal derivaria.
Não afirmamos que indivíduos vivem isolados. Afirmamos apenas que a comunidade não precede moralmente a pessoa em todos os assuntos.
Princípio: aquilo que concerne somente ao indivíduo pertence ao indivíduo.
II. Onde surgem consequências comuns, surge uma comunidade legítima
“Private where private belongs.”
— Robert A. Heinlein, 1966, The Moon Is a Harsh Mistress
A autonomia individual não elimina bens comuns, externalidades ou interesses compartilhados.
Uma rua, um rio, um condomínio, uma empresa, uma rede, um mercado ou qualquer recurso compartilhado pode exigir regras comuns.
A legitimidade da decisão coletiva cresce na proporção em que a ação individual produz efeitos relevantes sobre os demais.
Isso significa também que a autoridade coletiva deve ser proporcional ao problema.
Uma comunidade não adquire competência universal apenas porque possui competência legítima sobre determinado assunto.
Elinor Ostrom mostrou empiricamente que a administração de bens comuns não precisa ser reduzida à alternativa entre propriedade privada individual e comando estatal central. Pessoas podem criar instituições próprias, frequentemente sobrepostas e organizadas em diferentes escalas, para administrar aquilo que compartilham.
Princípio: autoridade acompanha externalidade; competência acompanha função.
III. Comunidade é uma relação, não necessariamente um território
“A culture is—a group of people…”
— Neal Stephenson, 1995, The Diamond Age
Uma comunidade pode ser geográfica:
uma vila, um bairro, uma cidade.
Pode também ser associativa:
uma igreja, uma empresa, uma cooperativa, uma profissão, uma comunidade virtual, uma associação cultural ou qualquer grupo organizado em torno de uma finalidade comum.
Uma mesma pessoa pertence a muitas comunidades ao mesmo tempo.
Elas podem sobrepor-se sem formar uma única pirâmide.
A comunidade adequada para decidir determinada questão é aquela relacionada à questão, e não necessariamente aquela que ocupa o maior território.
Por isso, rejeitamos a identificação automática entre sociedade e Estado territorial.
O projeto constitucional federal espanhol de 1873 expressou uma ideia notavelmente próxima ao declarar:
“Todo lo individual es de la pura competencia del individuo.”
E distribuía depois o municipal, o regional e o nacional às respectivas esferas.
Nós estendemos essa lógica para além da geografia.
Princípio: a comunidade pertinente é definida pela relação pertinente.
IV. O poder deve subir, não descer
“from the bottom up”
— Ursula K. Le Guin, 1974, The Dispossessed
Comunidades menores não recebem sua autonomia como concessão graciosa de autoridades maiores.
É a autoridade superior que precisa justificar a competência que lhe foi delegada.
Quando várias comunidades encontram um problema que nenhuma pode resolver isoladamente, podem criar instituições comuns para esse fim.
A existência dessa instituição não lhe confere automaticamente competência sobre outros assuntos.
Proudhon percebeu que uma federação deixaria de ser verdadeiramente federal se o centro progressivamente absorvesse as competências de seus membros.
Uma estrada pode justificar um consórcio.
Uma bacia hidrográfica, outro.
A defesa contra uma ameaça, outro.
Nenhuma dessas necessidades prova que deva existir uma instituição permanente com soberania geral sobre todas as comunidades participantes.
Princípio: delegação de competência não cria soberania.
V. Comunidades livres podem ser profundamente diferentes
“Some cultures are prosperous; some are not.”
— Neal Stephenson, 1995, The Diamond Age
Pluralismo não significa ausência de valores.
Comunidades podem possuir tradições, normas morais, autoridades reconhecidas e expectativas fortes sobre seus membros.
Uma comunidade religiosa não precisa tornar-se secular para ser livre.
Uma comunidade tradicional não precisa abandonar suas tradições.
Uma comunidade experimental não precisa adotar os costumes de seus vizinhos.
Jonathan Haidt utiliza a expressão capital moral para descrever valores, virtudes, normas, práticas, identidades e instituições que ajudam uma comunidade a controlar oportunismo e sustentar cooperação.
Capital moral é necessário à coesão.
Isso não significa que todo capital moral seja necessariamente bom.
Uma comunidade pode possuir enorme coesão em torno de valores ruins.
Portanto, consideramos a coesão comunitária importante, mas não sagrada.
Capital moral permite que uma comunidade sobreviva.
Não lhe concede direito ilimitado sobre seus integrantes.
Princípio: liberdade de associação inclui liberdade para formar comunidades moralmente densas.
VI. A crítica racional marca o limite da autonomia comunitária
“You can’t crush ideas by suppressing them.”
— Ursula K. Le Guin, 1974, The Dispossessed
Não queremos substituir uma cultura universal imposta pelo Estado por milhares de pequenas tiranias locais.
Uma comunidade pode defender seus costumes por argumento, exemplo, persuasão, tradição e autoridade moral.
Pode determinar quem a representa.
Pode excluir de determinada função quem rejeita as condições inerentes àquela função.
Mas sua legitimidade começa a desaparecer quando precisa impedir coercitivamente que seus membros questionem, recusem ou abandonem sua autoridade.
Aqui adotamos e estendemos uma importante intuição de Karl Popper.
No paradoxo da tolerância, Popper não propôs simplesmente que ideias intolerantes fossem proibidas. Enquanto fosse possível enfrentá-las pelo argumento racional e pela opinião pública, a supressão seria injustificada. A ruptura ocorre quando se abandona o argumento e se passa à violência ou à ameaça dela.
Aplicamos o mesmo princípio ao autogoverno das comunidades.
Uma comunidade pode dizer:
“Consideramos você errado.”
Pode dizer:
“Esta conduta viola nossas normas.”
Pode dizer:
“Você não pode representar nossa associação se rejeita aquilo que ela representa.”
Não pode concluir:
“Você está proibido de questionar aquilo em que acreditamos.”
Discordância não é coerção.
Crítica social não é coerção.
Ostracismo não é necessariamente coerção.
Perder uma função numa associação voluntária não é necessariamente coerção.
Se toda consequência social fosse chamada de violência, nenhuma comunidade poderia possuir normas e nenhum capital moral poderia existir.
O limite está em violência, ameaça, confinamento, impedimento de saída ou utilização do poder coercitivo para tornar uma doutrina imune à crítica.
Princípio: nenhuma comunidade possui direito de tornar suas ideias infalíveis pela força.
VII. A consciência não pode ser delegada
“When law and duty are one…”
— Frank Herbert, 1965, Dune
Pertencer a uma comunidade não transfere a ela a consciência de seus membros.
Lei, costume, tradição, voto ou ordem superior não eliminam a responsabilidade moral do indivíduo por aquilo que ele próprio faz.
Thoreau recusou a ideia de que a existência de uma lei fosse suficiente para transformar obediência em dever moral.
Isso é particularmente importante numa sociedade de comunidades autônomas.
Autogoverno não significa:
a comunidade decidiu, portanto está certa.
Significa apenas que aquela comunidade possui legitimidade para governar aquilo que verdadeiramente pertence ao seu domínio.
O indivíduo continua podendo discordar.
Pode argumentar.
Pode recusar sua própria participação.
E, quando possível, pode sair.
Uma sociedade livre precisa ser capaz de conviver com aqueles que dizem não.
Princípio: autoridade política não substitui consciência individual.
VIII. Somos falibilistas
“I learn slowly.”
— Ursula K. Le Guin, 1974, The Dispossessed
Nenhum indivíduo sabe tudo.
Nenhuma comunidade sabe tudo.
Nenhum governo sabe tudo.
Nenhum modelo sabe tudo.
É precisamente porque erramos que precisamos de liberdade para experimentar, criticar e abandonar instituições que não funcionam.
Hannah Arendt colocou a pluralidade entre as condições fundamentais da política: pessoas diferentes veem o mundo de perspectivas diferentes e precisam agir juntas sem deixar de ser distintas.
Popper acrescenta uma consequência epistemológica: uma instituição aberta precisa permitir a descoberta de erros em vez de protegê-los contra crítica.
Hayek demonstra problema semelhante na economia: conhecimento relevante está disperso e não pode ser integralmente reunido por uma única autoridade.
Thoreau acrescenta a dimensão moral: mesmo quando todos os demais concordam, a consciência do indivíduo permanece sua.
Por isso preferimos sistemas nos quais seja possível:
contestar, experimentar, comparar, sair e corrigir.
Não queremos apenas bons governantes.
Queremos instituições capazes de sobreviver a governantes ruins, ideias ruins e às nossas próprias certezas equivocadas.
Princípio: instituições devem ser construídas supondo que seus dirigentes, seus membros e seus fundadores podem estar errados.
IX. A liberdade é uma direção histórica
“Do not let the past be a straitjacket!”
— Robert A. Heinlein, 1966, The Moon Is a Harsh Mistress
A liberdade não é um estado binário.
Sociedades não passam subitamente de “não livres” para “livres”.
Tecnologia, produtividade, conhecimento, costumes e formas jurídicas alteram aquilo que pode ser organizado sem coerção.
Cada geração recebe instituições construídas sob limitações que gerações anteriores não conseguiram superar.
Isso não torna toda instituição histórica justa.
Também não exige que julguemos os homens do passado como se dispusessem automaticamente de nossas instituições, conhecimentos ou possibilidades materiais.
Devemos distinguir:
o princípio moral
da
capacidade histórica de realizá-lo.
Novas tecnologias produtivas podem tornar desnecessárias formas antigas de trabalho coercitivo.
Novas instituições jurídicas podem permitir relações antes difíceis de organizar.
Novas tecnologias de comunicação podem tornar possível a coordenação de comunidades espalhadas pelo planeta.
Novas formas monetárias podem tornar viável aquilo que antes dependia necessariamente de intermediários.
E novas experiências políticas podem demonstrar que competências antes consideradas inseparáveis podem ser divididas.
O falibilismo nos impede de exigir perfeição instantânea.
Mas impede também que transformemos imperfeições históricas em desculpas eternas.
Quando descobrimos uma maneira menos coercitiva de alcançar determinada finalidade, a antiga coerção precisa novamente justificar sua existência.
Princípio: o progresso da liberdade consiste em ampliar continuamente o espaço da escolha possível.
X. Mercados são mecanismos de descoberta
“To succeed, planning alone is insufficient. One must improvise as well.”
— Isaac Asimov, 1951, Foundation
Defendemos mercados não porque indivíduos sejam infalíveis.
Defendemo-los precisamente porque não são.
Conhecimento econômico está distribuído entre milhões de pessoas.
Preços, lucros, prejuízos e concorrência permitem que informações locais influenciem decisões sem precisar ser reunidas previamente numa autoridade central.
Essa é uma das contribuições fundamentais de Friedrich Hayek.
O problema do planejamento não é apenas que planejadores possam ser mal-intencionados.
É que não podem possuir toda a informação que pretendem utilizar.
Matemática, econometria e modelagem não são inimigas dessa concepção.
Modelos ajudam a compreender relações.
O erro começa quando confundimos o modelo com a realidade que ele abstrai.
Microeconomia fornece os mecanismos dos quais emergem fenômenos agregados.
A macroeconomia não deve tratá-los como se existissem independentemente das pessoas, incentivos, preços e instituições que os produzem.
Princípio: mercados não eliminam erros; distribuem descoberta e correção.
XI. Mercado não é privilégio
“where people can come without crawling to Potter.”
— Frank Capra, 1946, It’s a Wonderful Life — filme
Defender mercado não significa defender toda empresa existente.
Subsídios seletivos, monopólios protegidos, barreiras artificiais à entrada e captura regulatória substituem competição por privilégio.
Empresas são formas legítimas de associação.
Seus proprietários possuem ampla autoridade sobre os recursos que lhes pertencem e sobre a direção da organização.
Mas propriedade não transforma outras pessoas em propriedade.
Empregados, consumidores e terceiros continuam possuindo seus próprios domínios e interesses legítimos.
A empresa existe dentro de uma rede de relações.
Quando sua atuação produz externalidades relevantes sobre outros, surge legitimidade para que os afetados participem da determinação dos limites dessa atuação.
Princípio: propriedade cria autoridade sobre recursos; não soberania sobre pessoas.
XII. A tecnologia pode ampliar o território da liberdade
“Information technology has freed cultures…”
— Neal Stephenson, 1995, The Diamond Age
Direitos jurídicos são importantes.
Mas tecnologia pode alterar aquilo que é necessário pedir a uma autoridade.
Os cypherpunks perceberam isso claramente.
Eric Hughes resumiu uma de suas premissas fundamentais:
“Privacy is necessary for an open society.”
Privacidade não deveria depender apenas de uma promessa legal.
Pode ser reforçada por criptografia.
Comunicação pode ser protegida por protocolos.
Reputação pode existir sem identidade civil obrigatória.
Dinheiro pode circular sem exigir necessariamente confiança num único intermediário.
Comunidades podem existir independentemente de fronteiras territoriais.
Tim May percebeu cedo que criptografia e redes digitais permitiriam associações humanas que os Estados territoriais teriam dificuldade em enquadrar em suas categorias tradicionais.
A experiência dos próprios cypherpunks mostrou também outra coisa:
uma comunidade voluntária, descentralizada e fortemente individualista ainda pode possuir cultura, autoridade informal, reputação e capital moral.
Liberdade não implica ausência de comunidade.
Implica que comunidade não precise significar comando central.
Princípio: quando tecnologia permite substituir dependência compulsória por escolha, ela amplia o território possível da liberdade.
XIII. Dinheiro também pode ser uma escolha
“Control the coinage and the courts—let the rabble have the rest.”
— Frank Herbert, 1965, Dune
Dinheiro é simultaneamente tecnologia, instituição e informação.
Não existe razão para presumir que somente uma única forma de dinheiro possa ser legítima.
Moedas públicas, privadas, comunitárias ou digitais podem coexistir e competir.
Hayek explorou explicitamente a possibilidade de concorrência entre emissores monetários.
Tecnologias posteriores ampliaram enormemente o universo daquilo que pode ser tentado.
Bitcoin demonstrou que até escassez monetária e liquidação de transações podem ser organizadas por uma rede sem um emissor central.
Não precisamos presumir que a forma monetária atualmente dominante será a forma final.
Princípio: aquilo que pessoas aceitam voluntariamente como dinheiro não precisa de uma origem soberana para adquirir legitimidade.
XIV. Liberdade exige possibilidade de saída
“Those who build walls…”
— Ursula K. Le Guin, 1974, The Dispossessed
Uma comunidade voluntária só permanece voluntária se a possibilidade de abandoná-la for real.
Nem toda saída é fácil.
Família, identidade, religião, língua, patrimônio, reputação e relações pessoais criam custos que podem ser inevitáveis.
Não confundimos todo custo com coerção.
Mas uma comunidade não deve deliberadamente transformar vínculos em prisão.
A possibilidade de saída também disciplina instituições.
Comunidades competem pela permanência de seus membros.
Empresas competem por trabalhadores e consumidores.
Moedas competem por confiança.
Serviços competem por usuários.
Quando não existe possibilidade de saída, essa disciplina desaparece.
Mas saída não substitui voz.
O membro de uma comunidade não precisa escolher entre submissão e abandono diante de toda divergência.
Ele deve poder argumentar.
Criticar.
Tentar convencer.
Só quando a convivência deixa de ser possível a saída torna-se o mecanismo final de proteção da liberdade.
Princípio: voz e saída são mecanismos complementares de liberdade.
XV. A forma de governo pertence também à comunidade
“The machinery of government is always subordinate…”
— Frank Herbert, 1976, Children of Dune
Liberdade não é sinônimo de sufrágio universal sobre todas as decisões.
Uma comunidade pode organizar-se por votação direta.
Outra por representação.
Outra por conselhos.
Outra por autoridades tradicionais.
Uma associação pode escolher seus dirigentes por eleição, sorteio, antiguidade, mérito ou qualquer mecanismo que seus membros reconheçam.
Uma estrutura política indireta, elitista ou hierárquica não é necessariamente incompatível com liberdade.
A questão decisiva é outra:
qual é o domínio dessa autoridade e até onde ela pode coagir?
Uma igreja não precisa eleger seus sacerdotes por sufrágio universal.
Uma empresa não precisa submeter todas as decisões a seus clientes.
Uma comunidade tradicional pode confiar determinadas decisões a anciãos.
Pluralismo institucional significa admitir que diferentes comunidades podem encontrar formas distintas de representação e decisão.
O limite continua sendo o mesmo:
nenhuma forma de governo transforma seus dirigentes em proprietários das pessoas governadas.
Princípio: democracia é uma possível tecnologia de governança; liberdade é o limite dentro do qual qualquer tecnologia de governança precisa operar.
XVI. Uma população livre conserva meios de defesa
“No conscript armies.”
— Robert A. Heinlein, 1966, The Moon Is a Harsh Mistress
A concentração absoluta da força em uma única instituição cria uma assimetria perigosa entre quem governa e quem é governado.
Cidadãos pacíficos devem poder conservar meios efetivos de defesa.
Isso não significa que violência seja desejável.
Significa que a capacidade de defesa não precisa ser monopólio de uma autoridade central.
Diversos movimentos históricos que desconfiaram de exércitos permanentes preferiram alguma forma de cidadão armado ou milícia local.
Uma sociedade livre busca reduzir a necessidade da força.
Não precisa, para isso, tornar seus cidadãos incapazes de exercê-la em defesa própria ou de suas comunidades.
Princípio: a capacidade de defesa deve permanecer tão distribuída quanto razoavelmente possível.
XVII. Justiça deve permanecer compreensível e próxima
“mutual aid between individuals”
— Ursula K. Le Guin, 1974, The Dispossessed
A lei existe para pessoas.
Não deve transformar-se numa linguagem sacerdotal acessível apenas a uma classe especializada.
Especialistas são necessários.
Mas especialização não deve produzir soberania.
Júris e outras formas de participação direta mantêm uma ligação entre justiça e comunidade.
O poder policial deve existir na medida necessária para responder aos cidadãos e impedir violência e fraude.
Não deve tornar-se um poder autônomo que trate a população como objeto de administração.
Quanto maior o poder coercitivo, maior deve ser sua responsabilidade diante daqueles sobre os quais é exercido.
Princípio: força e justiça devem permanecer subordinadas à sociedade, não o contrário.
XVIII. Cooperação entre comunidades não exige um soberano comum
“functions through coordination, not by rule.”
— Ursula K. Le Guin, 1969, The Left Hand of Darkness
O mesmo princípio vale em escala internacional.
Comunidades políticas diferentes podem comerciar, cooperar, arbitrar conflitos e criar instituições comuns sem necessariamente entregar a essas instituições soberania geral.
A tradição da paz democrática, associada modernamente a Michael Doyle, chama atenção para a relação historicamente peculiar entre regimes liberais representativos.
A literatura da paz comercial ou capitalista acrescenta outro mecanismo: sociedades economicamente interdependentes possuem mais a perder quando substituem cooperação por conflito.
Essas hipóteses continuam sujeitas a debate empírico.
O princípio político que delas retiramos é mais modesto:
relações voluntárias criam custos para a violência e benefícios para a cooperação.
Preferimos comércio a conquista.
Interdependência voluntária a império.
Federação funcional a absorção.
Princípio: paz duradoura deve surgir tanto quanto possível da vantagem da cooperação, não apenas do medo de um poder superior.
XIX. Não existe uma política universal para todo problema
“Circumstances alter cases.”
— Robert A. Heinlein, 1966, The Moon Is a Harsh Mistress
Uma política migratória adequada a uma cidade pode ser inadequada a outra.
Uma regra ambiental necessária para uma bacia hidrográfica pode não fazer sentido em outra região.
Uma política urbana para uma metrópole não precisa ser imposta a uma vila.
A resposta correta depende frequentemente de informação que só existe perto do problema.
Por isso, a pergunta inicial não deve ser sempre:
“qual é a política correta?”
Antes dela existe outra:
“quem é a comunidade pertinente para decidir esta questão?”
Em alguns casos será o indivíduo.
Em outros, o condomínio.
Em outros, uma cidade.
Em outros, uma associação que atravessa vários territórios.
Em outros, várias comunidades precisarão cooperar.
Não existe uma escala politicamente sagrada.
Princípio: governança deve procurar a menor escala capaz de tratar adequadamente o problema.
XX. Não queremos um centro melhor
“Change is freedom.”
— Ursula K. Le Guin, 1974, The Dispossessed
Entre o indivíduo isolado e o Estado soberano existe quase toda a sociedade.
Famílias.
Empresas.
Igrejas.
Municípios.
Associações.
Clubes.
Cooperativas.
Mercados.
Redes.
Comunidades digitais.
Federações temporárias.
Instituições que ainda não inventamos.
Não queremos substituí-las por uma única autoridade supostamente capaz de representar todas elas.
Também não queremos abolir a ação coletiva.
Queremos multiplicar os lugares nos quais ela possa acontecer.
Ostrom mostrou que sistemas humanos reais frequentemente escapam da dicotomia simples entre mercado e Estado.
Arendt mostrou a importância da pluralidade e da ação conjunta.
Thoreau afirmou a independência moral do indivíduo diante da autoridade.
Hayek mostrou os limites do conhecimento centralizado.
Popper explicou por que instituições precisam permanecer abertas à crítica.
Haidt chamou atenção para as condições morais que tornam possível a coesão comunitária.
Proudhon e os federalistas radicais imaginaram estruturas políticas construídas de baixo para cima.
Hughes, May e os cypherpunks demonstraram que novas tecnologias podem permitir formas de liberdade e associação que instituições territoriais anteriores não podiam oferecer.
Nenhum deles escreveu este manifesto.
Nenhum deles precisa concordar com todas as suas conclusões.
Não procuramos uma escritura política.
Procuramos uma tradição de problemas, experiências e ideias da qual podemos aprender.
E devemos estar preparados para descobrir que também estamos errados.
Síntese
Somos liberais porque presumimos a liberdade antes da coerção.
Somos policêntricos porque reconhecemos múltiplas comunidades e múltiplos centros legítimos de decisão.
Somos pluralistas porque não queremos impor uma única concepção de vida boa.
Somos associacionistas porque sabemos que liberdade não significa solidão e que comunidades precisam de confiança suficiente para existir.
Somos falibilistas porque nenhum indivíduo, comunidade ou instituição está imune ao erro.
Defendemos mercados porque conhecimento está disperso.
Defendemos comunidades porque cooperação humana exige mais do que contratos.
Defendemos crítica porque nenhuma tradição é infalível.
Defendemos tecnologia aberta porque novas ferramentas podem ampliar o domínio da escolha.
Defendemos saída porque associação sem possibilidade de saída pode tornar-se sujeição.
Defendemos cooperação porque descentralização não significa isolamento.
Não desejamos uma sociedade sem instituições.
Desejamos instituições que conheçam os limites de sua competência.
Não desejamos uma sociedade sem autoridade.
Desejamos autoridade sem soberania presumida.
Não desejamos uma sociedade sem tradição.
Desejamos tradições capazes de sobreviver à crítica sem precisar silenciá-la.
Não desejamos uma sociedade perfeita.
Uma sociedade que se considere perfeita já começou a perder a capacidade de corrigir seus erros.
A liberdade não é um projeto terminado.
Não sabemos quais tecnologias, instituições e formas de comunidade permitirão às próximas gerações serem mais livres do que somos.
Cabe-nos apenas não fechar esse caminho.
E, quando for possível trocar coerção por escolha, privilégio por concorrência, silêncio por crítica e submissão por associação, devemos fazê-lo.
Talvez imediatamente.
Talvez depois de aprender como.
Talvez, como ironizou um mineiro, apenas à tardinha.
Mas sempre na mesma direção:
Libertas quae sera tamen.
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