Epistemologia em The Big Bang Theory

Seria Sheldon Cooper um Agostiniano antiaristotélico defensor do Conhecimento Inato?
Epistemologia em The Big Bang Theory

Eu não era muito fan de The Big Bang Theory quando morava com meus pais. Quando me casei, resolvi assistir com minha esposa por livre e espontânea vontade, uma das séries de TV favoritas dela.

Sheldon, de longe, é o personagem que eu mais gosto. Tanto pelo seu rigor lógico quanto por seu carisma peculiar. Até porque ele é um físico teórico brilhante que tem uma memória muito boa. Inclusive, tem um episódio em especifico que me chamou a atenção.

O episódio em que Sheldon cita o filósofo Al-Ghazali ¹. Denominado “The Veracity Elasticity”, da 10ª temporada, episódio 7, exibido originalmente em 10 de novembro de 2016 pela Warner Channel.

Sheldon está indeciso sobre suas novas acomodações de moradia, comparando-se ao “Buridan’s donkey” (o asno de Buridan, uma alegoria filosófica sobre paralisia por escolha). Até que Amy menciona Aristóteles, e Sheldon cita Al-Ghazali, o filósofo persa do século XII, ao relacionar uma história de um homem preso entre duas tâmaras (frutas), similar à indecisão de Aristóteles.

Originalmente, Sheldon diz:

“Huh. Yeah, I wonder if that’s related to the 12th century Persian philosopher, Al-Ghazali and his story of a man caught between two dates.”

Amy por sua vez responde:

“Are you suggesting Al-Ghazali was Aristotelian? ’Cause if anything, he was anti-Aristotelian.”

Então Sheldon retruca:

“Al-Ghazali was anti-Aristotelian? Boy, you think you know a guy.”

Eu buguei na hora. Sheldon praticamente não se esquece de nada. E de repente reage com surpresa à informação sobre Al-Ghazali?

Minha esposa sempre me dizia que Amy era a pessoa perfeita para Sheldon, já que ela era Neurologista e gostava de observar como Sheldon pensava em diferentes ocasiões.

Mas eu continuava incucado com a surpresa de Sheldon, afinal, quem hoje em dia ousaria questionar qualquer coisa dita por Aristóteles não é mesmo?

Conhecimento Inato vs. Empirismo

Mas afinal qual era a crítica de Al-Ghazali ao Aristotelismo?

A resposta me veio a mente quando lembrei de um livro onde o Dr. Gordon Clark² cita Al-Ghazali no capítulo sobre Causalidade, embora essa obra fale sobre Epistemologia. Ele diz:

“Em primeiro lugar, causalidade é um termo relativo. Isto é, não pode haver causa sem que haja um efeito. Dizemos que X causa Y. Omita qualquer um deles e não haverá nem causa, nem efeito. Algumas causas e efeitos podem parecer simultâneos; a rotação da Terra continua enquanto o Sol está nascendo. Mas, é claro, a Terra tinha de estar girando previamente. Da mesma forma, quando o rebatedor substituto de baseball faz um home run, está movimentando seu bastão antes de a bola começar sua trajetória sobre o muro de outdoor na área direita. Assim, quando X causa Y, esses dois eventos distintos estão separados por um intervalo de tempo. Levou uma semana ou dez dias para que o assassinato do arquiduque causasse a Primeira Guerra Mundial. A bala que o matou precedeu sua morte por talvez apenas um minuto. De qualquer modo, causa e efeito são dois eventos temporalmente distintos. Em segundo lugar, entre o disparo da bala e a morte do arquiduque várias coisas poderiam ter acontecido, e de fato aconteceram. Sua esposa, não esperando a morte dele, sorria para a multidão na rua. Então, entre o assassinato e a invasão da Bélgica pela Alemanha, todo tipo de coisas também ocorreu na China e na Europa. Durante o intervalo, Lord Grey e o Kaiser poderiam ter evitado a guerra, e nesse caso a morte do arquiduque não teria sido a causa que foi. Certamente, historiadores insistem que a causa real da guerra foi o complexo de tratados desenvolvidos durante um período de anos. Mas isto somente aumenta o intervalo de tempo durante o qual a guerra poderia ter sido evitada. Agora, em terceiro lugar, o argumento requer alguma definição do termo «causa» . Visto que, para ser uma causa, um evento deve ter um efeito, a causa deve ser um evento que garanta o efeito. Dada uma causa, deve haver um efeito. Deve porque a causa deve produzir seu resultado. Se no intervalo de tempo acontece ou mesmo poderia acontecer algo para impedir o efeito, não há causa. Para concluir, em quarto lugar, é sempre possível que durante o intervalo de tempo um evento impeça aquele evento, que foi previamente chamado de efeito, de ocorrer. Lord Grey é um exemplo. A bola de baseball poderia se partir ao meio. Ou, se sugerirmos que o alimento é a causa da nutrição, quem come pode vomitar se ocorrer de estar rebatendo no campo de baseball. Ou, no contexto do século XX, uma bomba atômica poderia interferir. E quanto ao nascer-do-sol, que o oponente rapidamente menciona, nossa Estrela poderia explodir ou a Terra, desintegrar. Se o oponente é um cristão verdadeiro, terá de admitir a possibilidade de que Deus possa destruir no intervalo os céus e a Terra com fogo ardente, deixando de existir. Se esse argumento não fizer o apologista dar o braço a torcer, ele provavelmente virá com duas objeções. Primeiro, mas ilogicamente, ele dirá: “Mas eu quis dizer que X causa Y se nada intervir”. Dito assim, sem rodeios, a falácia é flagrante. No entanto, ela pode ser declarada mais veladamente. O alimento nos nutre se não sentimos enjoo, se o estômago termina sua função, se os sucos são absorvidos no sangue e se o sangue é levado aos músculos. Mas note bem: nós não temos mais dois eventos, X e Y. Temos a definição de nutrição; e certamente é lógico insistir que se estamos nutridos, segue-se logicamente, mas não temporalmente, que estamos nutrimos. A segunda réplica que o apologista provavelmente dará é que um cristão como eu deve reconhecer que Deus causa todas as coisas. De fato, isso é algo que eu certamente reconcheceria mas o significado do termo causa foi drasticamente mudado, Nós começamos falando sobre dois eventos no mundo espaço-temporal: o rebatedor causou ou fez a bola passar por cima do muro, mastigar comida na boca causa a nutrição, uma bala causou a morte do arquiduque. Mas agora o apologista empírico começa a falar de Deus causando todas as coisas. Concordamos agora com o anti-aristotélico islâmico Al Gazali: Deus e somente Deus é a causa, pois somente Deus pode garantir a ocorrência de Y e, de fato, de X também. Até mesmo os Divinos de Westminster concordam timidamente, pois depois de afirmar que Deus preordena tudo o que acontece, e que ‘nenhum dos seus propósitos pode ser frustrado’ (Jó 42: 2), eles acrescentam: “Embora… todas as coisas acontecem imutável e infalivelmente, contudo, pela mesma providência, Deus ordena que elas sucedam conforme a natureza das causas secundárias…”. O que eles chamam de causas secundárias, Malebranche tinha chamado de ocasiões. Mas uma ocasião não é um fiat lux, nem uma equação diferencial.””.³

O Dr. Clark, ao citar Al-Ghazali, está argumentando a favor do Conhecimento Inato.

Os teólogos Tomistas e Evidencialistas , defendem que é possível chegar a existência de Deus pelos meios empíricos, através da Teologia Natural. Porém, Paulo diz em Romanos 1:19-20 que o homem já tem o conhecimento inato sobre Deus, por isso, quando observa a natureza, ele pode contemplar os atributos do Criador. Ou seja, o homem não conhece Deus pelos sentidos, mas sabendo que Ele existe, reconhece as obras de Deus e a manifestação dos seus atributos. Isso não é empirismo, mas um conhecimento inato de Deus.

Calvino diz que é impossível para o homem natural chegar ao conhecimento do verdadeiro Deus por si mesmo, pois sempre falha ao tentar chegar na verdadeira conclusão com sua mente entorpecida pelo pecado. O conhecimento que o homem tem sobre Deus é chamado por ele de Sensus Divinitatis (Senso do Divino):

“Neste particular, quão prodigamente toda a ordem dos filósofos tem sua fatuidade e inépcia (falta de entendimento e tolice)! Ora, para que poupemos aos demais, os quais muito mais absurdamente engendram despautérios, Platão, entre todos o mais religioso e particularmente sóbrio, também ele próprio se perde em seu globo esférico. E que não haveria de acontecer com os outros, quando os mais destacados, a quem caberia iluminar o caminho aos demais, assim desvairam e tropeçam?”. ⁴

Sobre esse “Sensus Divinitatis” Crampton diz:

“A Bíblia ensina, como afirma João Calvino, que o Espírito de Deus implantou em todos os homens uma ideia inata de si mesmo, um sensus divinitatis, que é proposicional e não pode ser erradicada. Isso se deve ao fato de que todos os homens são criados à imagem de Deus. Quando interage com a criação de Deus, que demonstra a glória, poder e sabedoria dele, o homem, sendo imagem de Deus, é forçado em certo sentido a “pensar Deus”. Em si mesma, a criação visível não medeia “conhecimento” para o homem (como na epistemologia de Tomás de Aquino), pois o universo visível não apresenta ou expõe nenhuma proposição. Antes, estimula à intuição (ou recordação) intelectual a mente do homem, que, como ser racional, já possui informação proposicional a priori sobre Deus e sua criação. Essa informação a priori se encontra imediatamente impressa na consciência do homem e é mais que suficiente para mostrar que o Deus da Bíblia é o único e verdadeiro Deus.”5

O Sensus Divinitatis mostra que existe um conhecimento inato no coração do homem, mas por causa da depravação total, o homem “suprime a Verdade pela injustiça”, criando ídolos para si, na tentativa de substituir o Criador pelas coisas criadas.

O Salmo 19:1–4 diz:

“Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol”.

Podemos afirmar que todas as coisas são causadas por Deus, e se somente Deus causa todas as coisas, o Conhecimento também é causado por Deus na mente do homem.

O sistema de pensamento cristão que tanto eu quanto o Dr. Clark defendia, afirma que todo o Conhecimento é causado por Deus nas suas criaturas. Isso significa que todos os eventos metafísicos necessários para que esse conhecimento seja ensinado ao homem são também controlados ativamente por Deus.

O Apóstolo Paulo também ensina o Conhecimento Inato de Deus no homem natural (incrédulo) em Romanos 2:14-15. Por isso um descrente sabe que mentir é moralmente errado mesmo se considerando ateísta, no caso, mesmo em rebelião contra a Lei Deus, o incrédulo tem escrito em seu coração a pré-condição necessária para lógica e moralidade. E isso porque eles não conseguem justificar a pré-condição de integibildade sem Deus. Por isso, a melhor escola de apologética tem como ponto de partida as Escrituras Sagradas, parte delas, pressupondo o que o Deus verdadeiro revelou em Sua Palavra, e afirmando ela somente como fundamento para formar a cosmovisão do cristão. A negação do Conhecimento Inato por parte de alguns também explica porque Tomistas fazendo Apologética na Internet é uma desgraça.

(Enquanto ficarem usando Analogia Entes contra incrédulos nesses “debates” ao invés de partir da Revelação Especial, sempre serão ridicularizados).

Aristóteles por sua vez, defendia justamente o contrário de Al-Gazalhi.

Nos escritos de Aristóteles, que escreve em seu tratado De Anima ( theερί Ψυχῆς , ’ Sobre a Alma’) sobre a “tábua não escrita”. Em uma das passagens mais conhecidas deste tratado, ele escreve:

“Já não eliminamos a dificuldade de interação que envolve um elemento comum, quando dissemos que a mente é, em certo sentido, potencialmente o que é pensável, embora na verdade não seja nada até que tenha pensado? O que pensa deve estar nela, assim como se pode dizer que os personagens estão em um tábua de escrever em que ainda nada está escrito (Tábua Rasa): é exatamente isso que acontece com a mente humana.“6

A ideia da tabula rasa posteriormente se tornou a ideia central de toda a filosofia secular no decorrer da história. Basicamente diz que o homem, ao observar as coisas, aprende (obtém Conhecimento) através dos sentidos (observação/indução) segundo os Empiristas.

Os teólogos cristãos da Escolástica, seguindo Tomás de Aquino, tentaram passar tanto a metafísica quanto a epistemológica dos empiristas gregos para a filosofia cristã. Em sua Suma Teológica Tomás de Aquino ensina:

“Mas, em contrário, diz o Filósofo, falando do intelecto, que este é como uma tábua na qual nada está escrito.“7

O Filósofo preferido dos Papistas também diz em outro lugar:

“Pois, tal ciência ele a tinha por espécies adquiridas, por conaturais ou infusas. Ora, não por espécies adquiridas, porque o conhecimento por meio delas provém da experiência, como diz Aristóteles; e o primeiro homem ainda não podia ter experiência de todas as coisas. Semelhantemente, nem por espécies conaturais: por ter ele a mesma natureza que nós, e a nossa alma é como uma tábua em que nada está escrito, como diz Aristóteles. Se era, pois, por espécies infusas, então a ciência que tinha das coisas não era da mesma natureza que a nossa, que haurimos delas.”8

Claramente, Aquino tem como próposito “cristianizar” o Empirismo Pagão de Aristóteles, também chamado hilemorfismo.

Curiosamente, em minhas interações, nem tanto harmoniosas, com Católicos Romanos fanboys da maior Cria de Aristóteles, eles sempre negavam que a Epistemologia de Aristóteles era Empirista, só não conseguiam justificar.

Eu entendo que ser antiaristotelico cause estranheza para a maioria das pessoas. Seria como não ser Papista, nem Flamenguista, nem Tomista. Mas prefiro a Verdade ao senso comum. E Graças a Deus eu não sou Tomista.

Referências:

1.Abu Hamid Muhammad ibn Muhammad al-Ghazali (1059 - 1111) foi um teólogo e filósofo persa. Filósofo de vertente céptica e racionalista, expôs sua doutrina especialmente em Autodestrição dos filósofos (em árabe Tahafut al-falasifah). Nesta obra, al-Ghazali se opõe tanto ao aristotelismo de Avicena quanto ao neoplatonismo dos demais filósofos árabes.

2.O Dr. Gordon Haddon Clark (1902-1985) foi um brilhante filósofo, teólogo calvinista, educador renomado internacionalmente e criador de extensa obra (escreveu mais de 40 livros). Foi presidente do Departamento de Filosofia da Universidade Butler por 28 anos, além de ter ensinado por mais de 60 anos em dezenas de faculdades e seminários. Profundo conhecedor de filosofia antiga e contemporânea, defendeu a revelação proposicional contra o empirismo e o racionalismo. Foi chamado por muitos de “um dos maiores pensadores do século XX”.

3.Gordon H. Clark, Senhor Deus da Verdade, Hobbs, NM: The Trinity Foundation, 1986, 2ª Edição 1994, 24-25, 27.

4.João Calvino | As Institutas da Religião Cristã, Volume 1, p. 71, 72.

5.W. Gary Crampton, Escrituralismo: Uma Cosmovisão Cristã.

6.Aristóteles, De Anima , 429b29-430a1.

7.Suma Teológica, Questão 84, Art 2.

8.Suma Teológica, Questão 94, Art 3, parte 9.


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