A Odisseia (2026) e o debate entre Voluntarismo e Essencialismo

O mais novo épico de Christopher Nolan, Odisseia (2026), incendeia o debate público e o entusiasmo de cinéfilos ao redor do mundo com um espetáculo cinematográfico de quase três horas filmado inteiramente em IMAX. Contudo, para além do virtuosismo técnico, esta releitura da obra homérica evoca contornos de uma disputa teorética muito mais antiga e profunda: o embate entre o Essencialismo e o Voluntarismo.
Trata-se de uma querela que nos toca de perto. Nós, calvinistas — distantes tanto do escolasticismo tardio quanto do tomismo —, somos frequentemente acusados de voluntarismo ao sustentarmos certas proposições sobre a soberania divina.
Um breve panorama conceitual
A acusação costuma emergir quando articulamos as doutrinas da Eleição e da Reprovação sob a ótica do Supralapsarianismo. Esta perspectiva ontológica dos decretos eternos — frequentemente e de forma equívoca denominada “dupla predestinação” — afirma, fundamentada no princípio Ex Lex, que Deus elege e reprova em um único e concomitante decreto lógico. Posto que a eleição repousa estritamente em Seu conselho soberano (o beneplacitum de Sua vontade, cf. Efésios 1:5), Deus, por conseguinte, compadece-se de quem quer e endurece a quem quer (Rm 9:18).
Diante da crueza teológica da reprovação divina, críticos recorrem ao espantalho de que a máxima “Deus faz o que quer” equivaleria ao voluntarismo filosófico. Ora, o voluntarismo, conforme classicamente definido na escolástica medieval, pressupõe a primazia absoluta da vontade sobre o intelecto no Ser divino, sugerindo que a razão estaria subjugada ao arbítrio. Nada mais distante da ortodoxia reformada.
Afirmar a soberania e a liberdade dos atos divinos não implica que Deus opere sem o concurso de Sua mente, nem que Seus decretos derivem de impulsos caóticos e desconexos. O argumento opositor beira o absurdo. Para sustentar o rótulo de voluntarismo, os detratores precisariam provar:
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1.Que as ações soberanas de Deus carecem de racionalidade intrínseca;
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2.Que a asserção de que “tudo o que Deus faz é justo” subentende um agir cego, destituído de sapiência eterna.
Quando Deus decreta e age, Ele o faz visando o fim supremo de Sua própria glória. Sua razão opera em perfeita harmonia com o Seu desejo. Visto que não subsiste no universo vontade mais digna, reta e santa que a do Criador, Ele invariavelmente agirá em conformidade com o Seu próprio conselho. Desmorona-se, assim, a falácia de que Deus, no Calvinismo, se move por mero capricho irracional.
Se desidratarmos essa soberania, seremos forçados a mutilar as Escrituras em passagens como o Salmo 115:3 (“O nosso Deus está nos céus e faz tudo o que lhe agrada“) e Efésios 1:11 (“Aquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade“), retrocedendo inevitavelmente ao arminianismo, onde Deus precisaria consultar a agência humana para então definir o que é a justiça.
A Metafísica Tomista e o Escrituralismo
Os essencialistas nos acusam de voluntarismo porque rejeitamos a metafísica tomista. Defendemos que todos os eventos cósmicos são causados eficientemente por Deus (Ef 1:11; Mt 10:29), o que inclui, necessariamente, a Queda de Adão. Deus não infundiu uma “substância má” na criatura; o pecado é a transgressão da lei, e Deus determinou soberanamente a Queda dentro de Seu plano eterno. Na arquitetura da realidade, Deus é a única causa primeira e eficiente; as chamadas “causas secundárias” operam de forma instrumental, conduzindo infalivelmente aos efeitos por Ele designados.
Diante disso, ecoam os questionamentos: Seria essa visão Escrituralista idêntica à teoria da reminiscência platônica? Agostinho não lança mão do conceito de iluminação?
Embora elementos remanescentes de empirismo possam ser traçados na obra agostiniana, em seu diálogo De Magistro ele opera uma ruptura crucial: o “Mestre Interior” (Deus) assume o lugar da reminiscência platônica (que dependia da transmigração das almas). No Escrituralismo, portanto, o conhecimento inato e a iluminação mental não apontam para o platonismo, mas sim para a antropologia bíblica e para o Logos epistemológico de João 1:9, que “_ilumina a todo homem que vem ao mundo”._
A raiz do pseudo-problema: O Dilema de Eutífron
A tentativa escolástica de interpretar o Deus vivo sob as lentes da filosofia helênica frequentemente obscureceu a revelação. O impasse remonta ao diálogo Eutífron, de Platão, no qual Sócrates interroga o jovem que pretendia processar o próprio pai:
[Sócrates]: “O piedoso é amado pelos deuses porque é piedoso, ou é piedoso porque é amado pelos deuses?” [1]
No ecossistema pagão, o dilema expõe a arbitrariedade de divindades finitas e conflitantes. Transportado erroneamente para o Cristianismo, o dilema cria uma falsa dicotomia: ou a justiça é um padrão universal externo a Deus (ao qual Ele deve submissão), ou Deus é um tirano egoísta.
Todavia, esse problema é inexistente na teologia bíblica. O que é justo e bom o é precisamente porque Deus o decreta e o faz. Deus não consulta um catálogo de ideias ou uma norma ética exterior a Si mesmo. Ele é a lei para Si mesmo. Como bem asseverou João Calvino:
“[…] pois embora Seu poder esteja acima de todas as leis, ainda assim, porque Sua vontade é a mais certa regra de perfeita equidade, o que quer que Ele faça deve ser perfeitamente certo; e, portanto, Ele está livre das leis, porque Ele é uma lei para Si mesmo e para todos.” [2]
No mesmo sentido, o teólogo reformado Jerome Zanchius complementa:
“Consequentemente, Abraão considerou justa a ordem para matar seu filho inocente. Por que ele teve tal estima por essa ordem? Terá sido porque a lei de Deus autorizou o assassinato? Não; porque, ao contrário, a lei de Deus e a lei da natureza proibiram peremptoriamente o assassinato; mas o santo patriarca bem sabia que a vontade de Deus é a única regra de justiça, e que o que Ele quer mandar é, nesse exato relato, justo e reto […] Tampouco a Deidade sempre abençoada cai sob a segunda noção de um tirano, a saber, como alguém que abusa de seu poder ao agir contrário à lei, pois a qual lei exterior Ele está subordinado, Ele que é o supremo Legislador do universo? As leis promulgadas por Ele são projetadas para a regra de nossa conduta, não da Sua conduta.“ [3]
A interprenetração dos atributos: A perspectiva de Gordon Clark
Para desatar o nó desta falsa divisão entre intelecto e vontade na essência divina, o filósofo presbiteriano Gordon Clark oferece uma esclarecedora elucidação, conforme sintetizado por Daniel Gomide:
“Em virtude disso, a vontade de Deus não é determinada por uma lei superior e independente Dele mesmo. A vontade de Deus é autodeterminada. Além disso, o Ser de Deus não é anterior a Sua própria vontade, como se Deus fosse composto por um Ser e uma vontade consequente determinada por esse Ser. Vontade e Ser coincidem em Deus. É por isso que o Dr. Clark alegou que Duns Scotus precisava abandonar a distinção formal entre intelecto e vontade em Deus. Ele escreveu: ‘De fato, as características de infinidade, onipotência e liberdade que Duns Scoto enfatizou, deveriam tê-lo levado a negar a distinção entre intelecto e vontade, em Deus, e a se aproximar da posição de que Deus é vontade’ (CLARK, 2012b, p. 243).[4].
Em outras palavras, embora Clark utilize os termos vontade e intelecto, ele considera ambos indistinguíveis: ‘O resultado disso é que o autoconhecimento e o autodesejo de Deus se tornam indistinguíveis’ (CLARK, 2012b, p. 244). Isso serve de alerta aos que, equivocadamente, confundem o Dr. Clark com um voluntarista. Em seu artigo Faith and Reason, o Dr. Clark declara que: ‘Intelecto e vontade não são duas ‘faculdades’ separadas; em vez disso, eles se interpenetram em um único estado mental que é difícil e talvez impossível não apenas separá-los no tempo, mas até mesmo em definição’ (CLARK, 2015a).“ [4]
Em Deus, portanto, essência, mente e vontade são unificadas. A Bíblia não ensina uma Teontologia das faculdades fragmentadas; Deus é uma pessoa perfeita e simples em Sua existência.
O Comando Divino na Teologia Bíblica
A soberania do comando divino desafia as estruturas morais caídas e as tradições humanas. Tomemos o princípio da primogenitura: embora a própria lei civil mosaica resguardasse direitos específicos ao primogênito (Dt 21:16-17), a narrativa histórica da redenção demonstra que Deus, em Sua soberana prerrogativa, frequentemente subverteu essa ordem natural.
Caim era o primogênito, mas Deus aceitou a Abel; Isaque foi preferido em detrimento de Ismael; Jacó foi escolhido antes de Esaú; Efraim recebeu a bênção antes de Manassés; e Davi, o caçula, foi ungido rei preterindo seus irmãos mais velhos.
Diferente do demiurgo platônico — que molda o mundo subordinado a um universo de Formas preexistentes —, o Deus verdadeiro projeta a ética a partir de Sua própria mente e vontade eternas.
Essa compreensão reverente da retidão divina é corroborada contemporaneamente por John MacArthur, ao prefaciar a obra de Steven Lawson:
”Apesar da clareza que a Escritura fala sobre este tópico, atualmente muitos cristãos professos estão em conflito com a aceitação da soberania de Deus — principalmente quando se trata da obra eletiva de Deus na salvação. Naturalmente, seu protesto mais comum é que a doutrina da eleição é injusta, não é equânime. Mas essa objeção vem de uma ideia humana de justiça, e não do entendimento divino, objetivo, da verdadeira justiça. Para que possamos tratar apropriadamente do tema da eleição, devemos pôr de lado todas as considerações humanas e focalizar a natureza de Deus e seu justo e alto padrão. A justiça divina — é onde a discussão deve começar.
Que é a justiça divina? Exposta simplesmente, a justiça é um atributo essencial de Deus pelo qual ele faz infinita, perfeita e independentemente, e com exatidão, o que ele quer fazer, quando e como o quer fazer. Uma vez que é o padrão da justiça, pela própria definição, seja o que for que faça, isso será inerentemente justo. Como William Perkins disse há muito tempo, ‘Não devemos pensar que Deus faz algo porque é bom e reto, mas antes que algo é bom e reto porque Deus o deseja e faz’. Portanto, Deus define a justiça para nós porque ele é, por natureza, justo e reto, e o que ele faz reflete essa natureza. Sua vontade livre — e nada mais — está por trás da sua justiça. Significa que: o que ele quer é justo; e é justo, não devido a algum padrão externo de justiça, mas simplesmente porque ele o quer.” [5]
Ao assistirmos à jornada cinematográfica de Nolan em Odisseia, que sejamos lembrados de que o cosmos real não está à mercê do fado trágico grego ou de deuses caprichosos e sim sob o governo absoluto de um Deus cuja vontade soberana e intelecto infinito constituem, em si mesmos, o fundamento último de toda a justiça, verdade e realidade.
Fontes e Referências Citadas:
[1] PLATÃO. Eutífron (ou Da Piedade), 10a.
[2] CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã, Livro III, Capítulo 23, Seção 2.
[3] ZANCHIUS, Jerome. The Absolute Predestination (A Predestinação Absoluta), Capítulo IV, “Concerning Predestination as it respects Mankind”.
[4] GOMIDE, Daniel. Gordon Clark e o Intelectualismo Scriptural. Citações internas de: CLARK, Gordon H. Thales to Dewey (2012b); CLARK, Gordon H. Faith and Reason (2015a); CLARK, Gordon H. The Biblical View of Man (2018b).
[5] MacARTHUR, John. Prefácio em: LAWSON, Steven J. Fundamentos da Graça: 1400 a.C. a 100 d.C. (Pilares da Graça, Vol. 1). Editora Fiel.
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