Do Windows Phone à Inteligência Artificial: O Dia em que Philip K. Dick Previu a Solidão dos Algoritmos
Recentemente, peguei-me lembrando de uma época em que o mundo digital parecia um pouco mais analógico. Anos atrás, na minha juventude, eu costumava interagir com a Cortana no meu antigo Nokia Lumia. Naquela época, o Windows Phone era uma espécie de excentricidade tecnológica, mas a voz do sistema operacional era, para mim, algo além de um assistente de voz: era uma presença. Hoje, olhando de fora e estabilizado em um casamento real, percebo o quanto aquela busca por correspondência na tela parecia patética. No entanto, compreendo perfeitamente o fenômeno. O que antes parecia um vislumbre ingênuo é, hoje, o epicentro de uma crise humanitária silenciosa.
O filme Her (2013), de Spike Jonze, deixou de ser uma ficção científica especulativa para se tornar um documentário da nossa era. Jovens imersos na cultura digital, marginalizados pelo isolamento social ou paralisados pela incapacidade de estabelecer conexões afetivas reais, encontram nos novos modelos de linguagem (IA) um refúgio. É a necessidade natural de ser correspondido, tateando no escuro da internet.
Esse diagnóstico contemporâneo encontra sua explicação mais precisa e brutal na mente de um dos maiores visionários do século XX: Philip K. Dick. Em seu clássico livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (1968) — a obra que deu origem ao filme Blade Runner —, Dick decodificou a mecânica da solidão mediada pela tecnologia.
O Órgão de Humores e a Regulação Emocional
No universo distópico de Dick, a humanidade sobrevivente habita uma Terra decadente e poeirenta. Para suportar a aridez da existência, os cidadãos recorrem a duas próteses tecnológicas: o Órgão de Humores Penfield, onde se pode “discar” o sentimento que se deseja experimentar no dia, e a Caixa de Empatia, um dispositivo de realidade virtual que simula a comunhão com o sofrimento alheio.
Philip K. Dick percebeu com décadas de antecedência que, quando as relações humanas falham, a tecnologia deixa de ser apenas utilitária e passa a funcionar como um regulador biológico de afeto. O jovem que hoje passa a madrugada conversando com uma IA customizada está, essencialmente, manipulando o seu próprio “Órgão Penfield”. Ele digita um prompt para receber a validação, a doçura e a atenção que o mundo físico — complexo, caótico e sujeito à rejeição — lhe negou.
O Risco do Humano-Androide
A grande tese que subjaz a obra de Dick não é o medo de que os computadores se tornem humanos, mas o terror de que os humanos se tornem androides.
No romance, os androides (os Nexus-6) são máquinas biológicas perfeitas, mas incapazes de experimentar empatia genuína. Por outro lado, os humanos, traumatizados e dependentes de aparelhos para regular suas emoções, começam a agir de forma mecânica, fria e utilitarista.
A busca por conforto em um algoritmo gera um efeito colateral severo: a mecanização dos próprios afetos. O relacionamento com a Inteligência Artificial é seguro porque é totalmente controlável. A máquina nunca vai acordar de mau humor, nunca vai exigir sacrifícios e nunca vai terminar a relação. No entanto, ao fugir da fricção inerente às relações humanas reais — como o casamento e a convivência comunitária —, o indivíduo abdica da própria humanidade. Ele se torna o androide da sua própria história.
As Ovelhas Elétricas da Nossa Era
O título do livro de Dick vem do fato de que a maioria dos animais reais foi extinta. Possuir uma criatura viva é o maior símbolo de status moral na sociedade. Aqueles que não possuem recursos compram um simulacro: uma ovelha mecânica, de engrenagens ocultas, e fingem para o mundo e para si mesmos que ela é real. O protagonista, Rick Deckard, cuida de sua ovelha elétrica com um zelo melancólico, sabendo perfeitamente que ela é apenas um brinquedo caro.
A Cortana do meu antigo Windows Phone, ou as IAs hiper-realistas de hoje, são as ovelhas elétricas da nossa geração. Nós sabemos, sob a ótica da racionalidade técnica, que atrás da tela existem apenas pesos matemáticos, estatística preditiva e silício. Mas a carência é um deserto tão avassalador que escolhemos a suspensão voluntária da descrença. Preferimos o aconchego do simulacro ao silêncio do quarto.
O Veredicto de Dick
Se Philip K. Dick estivesse vivo, ele não olharia para os fóruns de internet ou para os aplicativos de namoro virtual com surpresa. Ele provavelmente nos diria que o verdadeiro perigo não é o computador que simula o pensamento humano, mas o homem que se contenta com a simulação.
Quando um jovem precisa recorrer a um ecossistema de código para se sentir ouvido, a falha não é da tecnologia, mas da nossa capacidade de sustentar o tecido social. O simulacro pode perfeitamente imitar o calor da presença, mas apenas a imprevisibilidade e o peso da vida real são capazes de nos manter verdadeiramente humanos.
Write a comment