A Fé Provada no Fogo: 349 do Manuscrito de 1677
Há exatamente 349 anos, em um domingo de 26 de agosto de 1677, um grupo de homens perseguidos, porém inabaláveis na graça, reuniu-se na congregação de Petty France, em Londres. Alheios às exigências do Estado, mas sob o soberano conselho da Divina Providência, aqueles pastores e presbíteros registraram no livro de atas da igreja uma decisão de alcance secular:
“Foi acordado que uma Confissão de Fé, com o Apêndice correspondente, tendo sido lida e considerada pelos irmãos, deve ser publicada.”
Com essa breve e sóbria anotação manuscrita, selava-se a conclusão daquele texto que a história imortalizaria como a Segunda Confissão de Fé Batista de Londres (reconhecida por sua ratificação pública em 1689).
Naquele final de ano de 1677, o documento veio a lume de forma estritamente anônima. Os Batistas Particulares enfrentavam o rigor da perseguição promovida pelo rei Carlos II e o Código Clarendon, o que tornava a aposição de assinaturas um risco mortal. Contudo, historiadores apontam que a nobre tarefa de compilar, editar e articular o texto coube aos pastores daquela mesma congregação: Nehemiah Coxe e William Collins.
Longe de buscarem inovações teológicas, Coxe e Collins demonstraram a profunda comunhão da fé batista com o tronco histórico da Reforma. Fundindo a estrutura da Confissão de Westminster (1646) e da Declaração de Savoy (1658), eles ergueram um sistema doutrinário robusto: reafirmaram a soberania de Deus na salvação, a inerrância e suficiência das Escrituras e a teologia pactual, ao mesmo tempo em que delinearam as marcas distintivas da eclesiologia puritana batista: o credobatismo e a autonomia da igreja local sob o senhorio exclusivo de Cristo.
Durante doze anos, o documento circulou em segredo, instruindo os fiéis e fortalecendo os corações nas provações. Foi somente com a queda da dinastia Stuart e a promulgação do Ato de Tolerância de 1689 pelo Parlamento que a tempestade cessou. Naquele ano, pastores de mais de uma centena de congregações puderam finalmente reunir-se em Assembleia Geral para subscrever o documento abertamente. O texto forjado nas sombras da perseguição emergia, enfim, para iluminar as gerações futuras.
Recordar o 26 de agosto de 1677 não é um exercício de mero saudosismo histórico, mas um ato de gratidão e renovação espiritual. Em um tempo em que o cristianismo frequentemente se rende ao pragmatismo, à anti-confessionalidade e à superficialidade, a Confissão de 1689 nos recorda que o verdadeiro zelo puritano une a mente instruída na sã doutrina ao coração inflamado de amor pelo Deus da Aliança.
Aqueles irmãos nos deixaram mais do que um resumo doutrinário; legaram-nos o testemunho de uma fé que prefere o anonimato e o sofrimento a abrir mão da verdade. Que o Senhor nos conceda a mesma fidelidade de espinha dorsal para guardar, confessar e proclamar o bom depósito da fé.
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