O mundo é bom por conta de uma minoria

Pareto fez uma observação sobre distribuição desigual: em muitos fenômenos, uma parcela relativamente pequena das causas responde por uma parcela grande dos resultados. O exemplo clássico é o 80/20: aproximadamente 20% das causas podem produzir 80% dos efeitos.

Neste sentido, imagine, apenas como exercício, que uma parcela de 20% da população mundial fosse responsável por 80% das contribuições que tornam a sociedade melhor: pessoas que cuidam de outras pessoas, produzem conhecimento, desenvolvem tecnologias, trabalham voluntariamente, criam empresas, educam crianças, protegem desconhecidos, combatem injustiças, produzem alimentos, mantêm hospitais funcionando ou simplesmente cumprem suas responsabilidades mesmo quando ninguém está olhando.

Todos sabem que os grandes avanços científicos não foram produzidos por bilhões de pessoas. Foram produzidos por grupos relativamente pequenos de pesquisadores; a maior parte das grandes obras de arte não foi criada por toda a população, mas por uma minoria de artistas; empresas que transformaram mercados foram construídas por uma pequena parcela de empreendedores; descobertas que mudaram a história foram feitas por indivíduos que, muitas vezes, trabalharam durante anos praticamente desconhecidos. E, em situações de emergência, também vemos isso acontecer, é uma minoria que sai para ajudar a maioria. Enquanto muitos observam, uma minoria age.

Não se trata de negar o valor das contribuições cotidianas, mas de reconhecer que uma parcela muito pequena da humanidade produz resultados extraordinariamente superiores à sua representação numérica.

Nesse cenário (Pareto), o mundo que conhecemos seria sustentado por uma minoria.

Considerando uma população mundial próxima de 8 bilhões de pessoas, 20% representam algo em torno de 1,6 bilhão de indivíduos. Seria como se uma população equivalente a aproximadamente um quinto da humanidade produzisse a maior parte dos avanços dos quais os outros quatro quintos se beneficiam.

Ainda que nossa percepção do todo seja enganosa, a realidade em si não se confunde com a maneira como a percebemos. Não devemos tomar aquilo que percebemos pela totalidade da realidade.

Frequentemente, catalogamos as coisas positivas como conquistas da humanidade, sem questionar quem efetivamente as produziu. Em Kant, não conseguimos conhecer o númeno, a realidade tal como é independentemente da nossa experiência. Aquilo que conhecemos é o fenômeno, a realidade tal como aparece para nós, enquanto a coisa em si permanece inacessível ao nosso conhecimento. Se nossa percepção possui limites, também devemos questionar até que ponto conseguimos reconhecer aqueles que efetivamente sustentam e transformam a sociedade.

Para Schopenhauer, essa separação ganha uma consequência ainda mais profunda. O mundo que percebemos é representação: pessoas, sociedades e até mesmo aquilo que chamamos de progresso chegam à nossa consciência por meio das estruturas pelas quais experimentamos a realidade, sem necessariamente revelar sua natureza por completo.

Essa distinção levanta uma questão sobre a maneira como julgamos a humanidade.

Os jornais selecionam acontecimentos que despertam interesse e geram audiência. Nossa percepção da sociedade também é seletiva: conhecemos os grandes acontecimentos e seus resultados, mas raramente identificamos quantos indivíduos foram efetivamente responsáveis por produzi-los.

Grandes descobertas científicas e avanços tecnológicos frequentemente resultam do trabalho de poucos indivíduos. Seus resultados, entretanto, beneficiam milhões ou bilhões de pessoas. Com o tempo, essas realizações passam a ser tratadas como conquistas da humanidade, sem que se faça distinção entre seus responsáveis e seus beneficiários.

Nossa percepção do mundo não é uma fotografia da realidade, mas uma seleção. Ao observarmos o progresso da civilização, corremos o risco de atribuir ao conjunto da população méritos que pertencem a uma fração dela.

A questão final, portanto, não é apenas quanto bem existe no mundo, mas quantas pessoas são efetivamente responsáveis por produzi-lo.

Talvez a humanidade não seja extraordinária em seu conjunto. Talvez apenas uma fração dela seja capaz de realizações extraordinárias, cujos benefícios acabamos atribuindo a todos ou consumido por todos.

Talvez o mundo pareça pior do que é porque o mal é ruidoso e o bem, frequentemente, é silencioso.

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