EUA e Irã chegam a acordo provisório para encerrar conflito no Oriente Médio

O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um acordo de paz provisório com o Irã, que prevê a reabertura do Estreito de Ormuz. O acordo, que gerou reações no mercado financeiro e críticas de Israel, também estabelece futuras negociações sobre o programa nuclear iraniano.
EUA e Irã chegam a acordo provisório para encerrar conflito no Oriente Médio

EUA e Irã chegam a acordo provisório para encerrar conflito no Oriente Médio O cessar-fogo entre EUA e Irã foi vendido como o fim da guerra e a reabertura de Ormuz. Na prática, virou um teste de força: Trump contra Netanyahu, Teerã contra Jerusalém, mercado contra realidade militar.

Washington: acordo histórico ou repeteco piorado de Obama?

Na versão da Casa Branca, trata-se de um “grande acordo” que garante que o Irã “não terá armas nucleares” e reabre totalmente o Estreito de Ormuz já na sexta-feira. Trump afirma que Teerã concordou em “nunca desenvolver uma arma nuclear”, com destruição do estoque de urânio e volta de inspetores ao país. O vice J.D. Vance reforça que nenhum ativo iraniano congelado foi liberado e que qualquer alívio econômico dependerá da eliminação do urânio altamente enriquecido e de inspeções robustas.

Analistas, porém, lembram que o texto é apenas um memorando de uma página e meia, muito mais frágil que o JCPOA de Obama, e pode ser “pior” que o acordo que Trump destruiu em 2018. Muitos dos temas espinhosos — programa nuclear, mísseis, milícias e ativos iranianos — foram empurrados para 60 dias de novas negociações.

Teerã e os críticos: paz provisória, minas em Ormuz e confiança zero

Do lado iraniano, o pacto é tratado como “memorando de entendimento” e “início de um processo de desescalada”, não como paz consolidada. Especialistas em logística marítima alertam que reabrir Ormuz “não é como liberar uma rodovia”: há minas a remover, rotas a reconfigurar e prêmios de seguro ainda elevados.

Um podcast dedicado ao tema resume a dúvida central: dá para confiar num acordo cujos termos ninguém viu por inteiro, enquanto Israel continua bombardeando o Líbano?

Israel: “terrível” para Tel Aviv, desobediência aberta a Trump

Em Jerusalém, a leitura é mais dura. Uma autoridade israelense classifica o acordo como “terrível para Israel” e diz que não há ninguém na liderança que o veja de forma diferente. A emissora Channel 13 relata que o governo Netanyahu foi pego de surpresa e considera o texto “negativo” para os interesses israelenses, principalmente pela margem dada ao programa nuclear iraniano e à possível flexibilização de sanções.

Na prática, Israel age como se não houvesse acordo: Netanyahu promete manter tropas no sul do Líbano “pelo tempo que for necessário”, enquanto a ministra Gila Gamliel afirma que o país “não é parte” do pacto EUA–Irã, continuará a ofensiva até desarmar o Hezbollah e impedirá o retorno de civis às áreas ocupadas até lá. Para Teerã, qualquer ataque israelense ao Líbano agora viola diretamente o memorando, e os EUA passam a ser “totalmente responsáveis” por novas aventuras militares do aliado.

Trump x Netanyahu: da parceria “total” à bronca pública

O acordo também cristaliza a fissura política entre Trump e Netanyahu. Reportagens apontam que a ofensiva conjunta deveria enfraquecer Teerã e fortalecer o premiê israelense, mas o desfecho ficou aquém do que Israel exigia — nenhuma solução imediata para mísseis iranianos ou para o apoio a milícias como o Hezbollah. Trump, por sua vez, passou a criticar abertamente os ataques israelenses ao Líbano, chamando um bombardeio de “cruel” e “demais” e sugerindo que “se Israel não consegue fazer o trabalho sem matar todo mundo, a Síria deveria fazer o trabalho” contra o Hezbollah.

Netanyahu rejeita qualquer ideia de subordinação a Washington e insiste que Israel manterá “zonas de segurança profundas” em Gaza, Líbano e Síria para proteger o país.

Ormuz aberto, mas pela metade: mercados comemoram, analistas pisam no freio

Nos pregões, o veredito inicial foi eufórico: o anúncio da reabertura do estreito, por onde passa cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo, derrubou o Brent em quase 5% e levou o barril de volta à casa dos US$ 80, com bolsas asiáticas, europeias e americanas em alta. Pela primeira vez desde o início da guerra, o petróleo foi negociado abaixo de US$ 80.

Mas poucos acreditam num retorno rápido aos níveis pré-guerra, em torno de US$ 70: ainda há incerteza sobre o comportamento de Israel e o tempo necessário para limpar Ormuz e normalizar o fluxo de grandes petroleiros. A própria Marisks, agência de risco marítimo, adverte que o acordo é só “o início de um processo de desescalada, e não a restauração imediata do comércio”.

O que está em jogo nos próximos 60 dias

No curto prazo, o acordo congela a guerra EUA–Irã por 60 dias, desmonta parcialmente o bloqueio naval americano e obriga Teerã a reabrir Ormuz, devolvendo o tabuleiro ao “status quo” de fevereiro. No médio prazo, porém, quase tudo continua em disputa: o destino do urânio enriquecido iraniano, a eventual liberação de fundos — negada hoje por Vance, mas ventilada em discussões sobre um fundo de reconstrução de US$ 300 bilhões —, e, sobretudo, se Washington terá força (ou vontade) de conter um Israel que já se declara “não vinculado” ao pacto.

Por enquanto, Trump vende paz, Teerã cobra garantias, Netanyahu testa limites — e o mundo navega por Ormuz com o freio de mão puxado.

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