Keiko volta ao poder prometendo ordem, mas herda o fantasma do próprio fujimorismo
Keiko volta ao poder prometendo ordem, mas herda o fantasma do próprio fujimorismo
Keiko Fujimori chega ao Palácio de Governo prometendo restaurar a ordem num Peru exausto de violência e paralisia. Mas sua posse recoloca no centro do poder um sobrenome que, sozinho, resume a divisão política do país.
A nova presidente assume após uma vitória apertada — menos de 50 mil votos de vantagem — e tenta vender sua chegada como resposta direta ao avanço da criminalidade. O argumento é simples: o Peru enfrenta sua pior crise de segurança em décadas, com homicídios saltando de 1.000 em 2018 para 2.600 em 2025 e denúncias de extorsão explodindo de 3.200 para 26.500. Nesse terreno, Keiko aposta numa agenda de choque: operações de busca em áreas perigosas, expulsão de migrantes irregulares, tribunais anônimos e até a retirada da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Há, porém, uma contradição no coração dessa promessa. O mesmo fujimorismo que se apresenta como antídoto para o caos é visto por muitos peruanos como parte da doença institucional. Desde 2016, o país teve oito presidentes, em boa parte derrubados ou empurrados para fora pelo Congresso, onde o grupo de Keiko sempre foi ator central. Em outras palavras: ela promete pacificar um sistema que seu campo político ajudou a incendiar.
O peso do legado familiar torna tudo ainda mais agudo. Keiko diz que governará “com mão de ferro”, ecoando o estilo de Alberto Fujimori. Para aliados, isso remete ao combate ao Sendero Luminoso e ao controle da hiperinflação; para críticos, evoca fechamento do Congresso, violações de direitos humanos e corrupção. A comparação, portanto, é inevitável: onde seus apoiadores enxergam firmeza, seus adversários veem autoritarismo reciclado.
No fim, a posse de Keiko não resolve a crise peruana — apenas a reorganiza. Ela chega ao poder vendendo segurança. O teste real será provar que ordem não significa repetir os excessos do passado.
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