Ortega vende “estabilidade”, críticos veem enterro da oposição na Nicarágua

O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, apresentou um projeto de reforma constitucional para ampliar o mandato presidencial de seis para sete anos e excluir a oposição das eleições. A medida, que deve ser aprovada pela Assembleia Legislativa controlada pelo governo, foi criticada por diversos países e organizações internacionais.
Ortega vende “estabilidade”, críticos veem enterro da oposição na Nicarágua

Ortega vende “estabilidade”, críticos veem enterro da oposição na Nicarágua
Daniel Ortega quer mais do que tempo no poder: quer também um campo eleitoral sem adversários. A nova proposta de reforma constitucional na Nicarágua expõe, sem rodeios, o choque entre o discurso oficial de “estabilidade” e a leitura externa de que o regime está fechando de vez a porta para a oposição.

De um lado, o governo embala a mudança como ajuste institucional. Segundo o presidente do Congresso, Gustavo Porras, o modelo proposto prevê que “nosso sistema de Estado e governo do povo presidente propõe-se a ser estruturado com um mandato efetivo de sete anos renováveis”. Na mesma linha, Porras afirmou que a ampliação “garante estabilidade na visão, nas operações e na continuidade”. Rosario Murillo, copresidente e esposa de Ortega, acrescentou que o plano foi apresentado ao corpo diplomático e passará por “consultas” com setores da sociedade.

Do outro, o conteúdo da proposta fala mais alto que a embalagem. A Assembleia, controlada pelo governo, prepara a aprovação para setembro com o objetivo de barrar nas urnas os adversários rotulados pelo orteguismo como “traidores” e “golpistas”. O contraste é brutal: enquanto o regime fala em ordem e continuidade, críticos veem a consolidação de um sistema sem competição real.

A reação internacional reforça essa leitura. Os Estados Unidos avisaram que não ficarão “de braços cruzados” diante da “ditadura”, e a União Europeia cobrou eleições “em conformidade com as normas internacionais”. Já a presidente do México, Claudia Sheinbaum, adotou um tom distinto ao dizer que “cada país tem sua autodeterminação e decide como se organiza”.

No fim, a disputa não é semântica. Para Ortega, trata-se de blindar um projeto político. Para seus críticos, é o passo seguinte de uma engenharia de poder que troca voto competitivo por controle permanente — agora com prazo de sete anos.

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