Airbnb derruba anúncios de moradia popular, mas o rombo da fiscalização permanece

A retirada de 1.625 anúncios de HIS e HMP marca uma resposta concreta à locação irregular em São Paulo. Ao mesmo tempo, o volume de multas, incentivos e investigações expõe a dimensão de um desvio que a plataforma sozinha não resolve.
Airbnb derruba anúncios de moradia popular, mas o rombo da fiscalização permanece

Airbnb derruba anúncios de moradia popular, mas o rombo da fiscalização permanece
A remoção de imóveis populares do Airbnb em São Paulo transforma uma promessa de fiscalização em ação visível. Mas também ilumina o tamanho do problema: moradias subsidiadas para baixa renda foram convertidas, em muitos casos, em ativos para aluguel de curta duração.

A plataforma começou a retirar 1.625 anúncios identificados pela Prefeitura: 773 ainda ativos e 852 já inativos serão excluídos definitivamente. O Airbnb apresenta a medida como cooperação com a política habitacional, enquanto transfere ao município a palavra final sobre eventuais erros de classificação. “Esse será um processo contínuo com base em informações oficiais fornecidas pela Prefeitura”, afirmou a empresa.

Para a gestão municipal, a ofensiva reforça a tese de que as regras existem e podem ser aplicadas: HIS e HMP foram criadas para famílias em faixas específicas de renda, com empreendimentos beneficiados por incentivos urbanísticos. A escala, porém, desafia essa narrativa. A prefeitura já autuou ao menos 887 unidades, com R$ 44,1 milhões em multas, enquanto a administração Ricardo Nunes sustenta que os incentivos viabilizaram mais de 400 mil moradias entre 2019 e 2024.

Já a leitura das investigações é mais dura: não se trataria apenas de anúncios fora da regra, mas de um modelo que permitiu a investidores capturar unidades concebidas para reduzir o déficit habitacional. A CPI calculou em R$ 5,1 bilhões a perda ligada a fraudes e desvios na renúncia fiscal entre 2014 e 2025 e propôs limitar a compra de HIS e HMP a uma unidade por CPF.

Há um ponto de concordância: os apartamentos devem voltar à sua finalidade social. A divergência está no diagnóstico. Airbnb e Prefeitura tratam a remoção como correção contínua; a CPI aponta que, sem controles mais rígidos sobre venda, cadastro e uso, a limpeza dos anúncios pode atacar o sintoma sem desmontar o negócio que o alimentou.

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