Selic cai a 14%, mas o alívio esbarra no medo da inflação e no crédito caro

O quarto corte consecutivo da Selic reduziu a taxa a 14% ao ano, mas não resolveu a disputa: indústria e governo veem juros ainda sufocantes, enquanto o BC e a oposição enfatizam inflação, risco fiscal e turbulência externa.
Selic cai a 14%, mas o alívio esbarra no medo da inflação e no crédito caro

Selic cai a 14%, mas o alívio esbarra no medo da inflação e no crédito caro
O Copom cortou a Selic para 14% ao ano pela quarta reunião seguida, mas o movimento de 0,25 ponto percentual está longe de encerrar a disputa sobre o preço do dinheiro no Brasil. Para uns, é alívio tímido; para outros, é o máximo que a inflação ainda permite.

A decisão unânime leva a taxa ao menor nível desde março de 2025 e acompanha a desaceleração recente dos preços. Ainda assim, o IPCA-15 acumulado em 12 meses estava em 4,52%, ligeiramente acima do teto de 4,5% da meta — razão central para o Banco Central preservar um tom defensivo. O próprio Copom afirma que o tamanho do ciclo será definido “à luz de novas informações”, para assegurar a convergência da inflação à meta.

A leitura pró-governo destaca a contradição: mesmo após quatro cortes, o Brasil mantém a maior taxa real de juros do mundo, de 9,30%, à frente da Rússia, segundo levantamento citado pela imprensa. Para o setor industrial, isso transforma a redução em gesto insuficiente. Ricardo Alban, presidente da CNI, afirmou que “não há justificativa compreensível para a manutenção da taxa de juros em um nível tão alto”, alegando que o patamar piora as perspectivas da indústria.

A oposição não contesta a queda, mas dá peso maior ao freio. Sua interpretação é que a atividade perde força, porém o mercado de trabalho segue aquecido, a inflação projetada continua acima da meta e uma escalada do petróleo, impulsionada pela guerra no Oriente Médio, pode contaminar combustíveis, energia e alimentos. Também mantém a política fiscal no centro do diagnóstico: novos estímulos ao consumo podem dificultar a desinflação.

Há, portanto, um ponto comum: juros de 14% continuam restritivos. A divergência está no risco prioritário. Indústria e governo veem crédito caro, investimento travado e a ameaça de desaceleração; BC e críticos do governo enxergam uma inflação ainda mal ancorada, capaz de tornar cortes rápidos um alívio caro demais.

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