Voepass dizia priorizar segurança, mas PF aponta ordem para esconder falhas
Voepass dizia priorizar segurança, mas PF aponta ordem para esconder falhas
A queda que matou 62 pessoas em Vinhedo deixou de ser tratada apenas como uma sequência de erros técnicos. Para a Polícia Federal, a tragédia expôs uma engrenagem empresarial que teria colocado voos e receitas acima da segurança; a Voepass sustenta a versão oposta.
O relatório final indiciou 16 pessoas, do piloto que operou a aeronave no voo anterior ao acidente ao diretor-presidente da companhia. Segundo a PF, dirigentes usavam um grupo de WhatsApp para pressionar a operação a “segurar” a liberação e sugerir que irregularidades fossem comunicadas somente quando o avião voltasse à base de Ribeirão Preto.
A investigação descreve uma “cultura de omissão” distribuída por toda a hierarquia. Pilotos, despachantes, mecânico, gerentes e diretores teriam contribuído, em diferentes funções, para manter aeronaves voando apesar de falhas. O alerta do sistema de degelo foi acionado oito vezes no trecho entre Guarulhos e Cascavel, e a tripulação tentou reiniciá-lo ao menos cinco vezes. A suspeita é que defeitos fossem escondidos para evitar paralisações e prejuízos.
A leitura dos investigadores contrasta frontalmente com a defesa da Voepass. Em nota, a empresa afirmou que “a segurança operacional sempre foi sua prioridade”, disse ter seguido os protocolos da Anac e destacou a experiência e a certificação dos tripulantes. Também ressaltou que o relatório integra apenas a fase investigatória e prometeu exercer seu direito de defesa.
Para os familiares, porém, o indiciamento é apenas o começo. Fátima Albuquerque, presidente da associação das vítimas, classificou o novo estágio como a abertura de um ciclo “de mais luta” e acusou os profissionais de saberem que a aeronave poderia cair.
Há ainda uma diferença decisiva entre suspeita e culpa: indiciamento não é condenação. Caberá ao Ministério Público Federal decidir se denuncia os investigados. Paralelamente, documentos foram enviados para avaliar possíveis falhas de fiscalização da Anac — sem que a PF, até agora, tenha atribuído responsabilidade à agência.
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