Entrevista proibida leva ex-marido de Maria da Penha de volta à prisão.
Entrevista proibida leva ex-marido de Maria da Penha de volta à prisão.
Uma entrevista que nem sequer chegou a ser exibida levou Marco Antônio Heredia Viveros, ex-marido de Maria da Penha, novamente à prisão. De um lado, a Justiça aponta uma violação deliberada de medidas protetivas; do outro, a defesa denuncia censura.
Heredia foi preso preventivamente no domingo (9), em Natal, após chamadas da Record anunciarem uma reportagem sobre a tentativa de feminicídio de Maria da Penha. Desde 2024, ele estava proibido de divulgar informações do processo ou expor o nome e a imagem da ativista e de duas filhas do casal.
Para o Ministério Público do Ceará, os trechos e materiais promocionais que já circulavam nas redes caracterizaram o descumprimento da ordem. Segundo o órgão, Heredia havia sido formalmente notificado das restrições e das consequências de uma eventual violação. A Justiça também proibiu a exibição da reportagem, mandou retirar as chamadas e determinou a preservação dos arquivos da produção, sob multa diária de R$ 100 mil.
A defesa apresenta uma leitura oposta. O advogado Otacílio Guimarães de Paula questionou: “Por que ele não pode falar nada sobre sua vida, sobre sua história e não sobre ela, mas sobre seu lado da história?! Por que ele deve ser censurado?”. O argumento tenta enquadrar o episódio como restrição à liberdade de expressão, não como nova agressão às vítimas.
Essa versão, porém, esbarra no alcance da medida protetiva — e no histórico judicial. Heredia sustenta que o casal foi vítima de um assalto em 1983, narrativa rejeitada pela Justiça, que o condenou por tentativa de homicídio. Maria da Penha ficou paraplégica, e a demora na punição transformou o caso em símbolo da omissão brasileira diante da violência doméstica.
A prisão ocorreu dois dias depois de a Lei Maria da Penha completar 20 anos. O contraste é contundente: enquanto a defesa vê silenciamento, Justiça e Ministério Público tratam a proibição como barreira necessária contra a continuidade da exposição das vítimas — num país que registrou 1.571 feminicídios em 2025.
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