Condenação de Assad promete justiça, mas pena de morte pode protegê-lo em Moscou
Condenação de Assad promete justiça, mas pena de morte pode protegê-lo em Moscou
A Síria finalmente condenou Bashar al-Assad — mas talvez tenha tornado ainda mais difícil levá-lo ao banco dos réus. Enquanto o novo poder apresenta a sentença como ruptura com décadas de impunidade, críticos enxergam justiça incompleta, seletiva e ameaçada pela própria pena de morte.
Julgado à revelia, Assad foi considerado culpado de assassinatos, tortura, mortes de menores e privações reiteradas de liberdade. Ao anunciar a pena capital, o juiz Fakhr al-Din al-Aryan resumiu o veredito: “Portanto, ele é condenado à morte”. Maher al-Assad, irmão do ex-presidente, e antigos comandantes militares e agentes de segurança também receberam a mesma sentença. Atef Najib, primo de Assad e ex-chefe da segurança política em Daraa, foi o único acusado presente no tribunal.
Para os defensores da transição, o julgamento representa um marco: é a primeira condenação desse porte desde que forças lideradas por Ahmed al-Sharaa derrubaram Assad, em dezembro de 2024. O ex-relator da ONU Paulo Sérgio Pinheiro classificou a iniciativa como “fantástica” e “extremamente importante”, por permitir que um tribunal nacional enfrente crimes documentados durante anos. Mas foi categórico sobre a punição escolhida: “inaceitável”.
A cobertura oposicionista brasileira acrescentou outro contraste, recuperando a relação de Assad com Lula: em 2010, o então presidente sírio recebeu no Brasil o Grande Colar da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. O episódio é usado para confrontar a antiga deferência diplomática com a atual condenação por crimes contra a humanidade.
O peso simbólico, porém, esbarra na geopolítica. Assad vive sob proteção russa, e não há acordo conhecido de extradição. Especialistas alertam que o risco de execução pode dar a Moscou um argumento adicional para negar sua entrega; a Human Rights Watch, embora reconheça a importância da responsabilização, também rejeita a pena capital e cobra julgamento justo.
Há ainda uma cobrança decisiva: que a justiça alcance não apenas o antigo regime, mas também abusos cometidos por grupos armados e pelas novas autoridades. A Síria pós-Assad continua fragmentada, marcada por violência sectária e pela desconfiança das minorias. A sentença abre uma porta histórica — sem garantir que Assad algum dia passe por ela.
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