Supercomputador bilionário promete soberania, mas parceria chinesa expõe o dilema

O governo aposta em uma máquina de 7.200 petaflops e na cooperação com Huawei e iFlytek para reduzir a dependência externa. O plano fortalece a infraestrutura nacional, mas mantém tecnologia estrangeira no centro da estratégia.
Supercomputador bilionário promete soberania, mas parceria chinesa expõe o dilema

Supercomputador bilionário promete soberania, mas parceria chinesa expõe o dilema
O Brasil quer conquistar autonomia em inteligência artificial com um supercomputador próprio — e, ao mesmo tempo, recorrer a empresas chinesas para acelerar essa independência. O pacote bilionário combina ambição nacional, desenvolvimento regional e cooperação estrangeira.

Na perspectiva favorável ao governo, o centro do anúncio é a máquina de pouco mais de R$ 1 bilhão que será instalada no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, ligado à UFRN, em Macaíba. Com capacidade prevista de 7.200 petaflops, o equipamento superaria amplamente o Santos Dumont, hoje o mais potente do país, e atenderia empresas, universidades e órgãos públicos. “Sessenta por cento de tudo que é processado da inteligência brasileira é feito fora, e agora vamos poder processar aqui”, afirmou a ministra Luciana Santos.

Reportagens situadas no campo da oposição, porém, não contestam os números centrais do projeto; elas realçam o contraste entre o discurso de autossuficiência e as parcerias internacionais necessárias para concretizá-lo. Lula apresentou a iniciativa como entrada do Brasil na disputa dominada por Washington e Pequim: “Nem chinês, nem americano é melhor do que nós. Vamos entrar nesse mercado.”

É justamente aí que aparece a principal tensão. Além do equipamento no Rio Grande do Norte, o governo prevê investir R$ 1,276 bilhão em cinco anos numa infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro, executada pela RNP com Huawei e iFlytek. A prioridade será desenvolver grandes modelos de linguagem nacionais e sistemas treinados em português. Segundo nota oficial, as ações “reforçam a soberania nacional sobre os dados de serviços brasileiros públicos e privados”.

As leituras, portanto, diferem mais na ênfase do que nos fatos. A visão governista destaca capacidade local, formação de 5 mil profissionais, energia renovável e redução das desigualdades regionais. A cobertura oposicionista sublinha a aparente contradição: para depender menos das potências tecnológicas, o Brasil primeiro precisará cooperar com elas. O resultado será medido não apenas pela velocidade das máquinas, mas pela transferência efetiva de conhecimento e pelo controle brasileiro sobre dados, chips e software.

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