Pró-governo diz que “Nosso Segredo” transforma o luto em um acontecimento cinematográfico

Premiado em Gramado, o primeiro longa dirigido por Grace Passô divide elogios entre a poesia do cotidiano, o realismo social e o uso do fantástico para traduzir traumas e afetos de uma família negra.
Pró-governo diz que “Nosso Segredo” transforma o luto em um acontecimento cinematográfico

Pró-governo diz que “Nosso Segredo” transforma o luto em um acontecimento cinematográfico
“Nosso Segredo” saiu do Festival de Gramado com três troféus e uma leitura crítica quase unânime sobre sua força — mas por caminhos distintos. Enquanto uma análise celebra a poesia extraída do cotidiano, outras destacam a mistura de realismo social, drama psicológico e fantasia.

O longa acompanha uma família negra de Belo Horizonte após a morte do pai. Cada personagem tenta contornar o luto à sua maneira, enquanto a casa inacabada ganha vida própria: lama escorre pelas paredes, o teto mofa e o andar superior se torna um território evitado. Para a primeira crítica, Grace Passô converte silêncios, pausas e gestos banais em intensidade, apesar das pontas soltas do roteiro. O resultado seria um “acontecimento cinematográfico”, impulsionado pela fotografia de Wilssa Esser e pela habilidade de “fazer poesia a partir daquilo que em geral se descarta”.

Uma segunda leitura coloca o fantástico no centro. Passô afirma ter “uma obsessão com o estranhamento” e usa o sobrenatural não como fuga, mas como linguagem para falar de perdas históricas, sobrevivência e afeto. “Hoje queremos abstrair os assuntos para que eles virem sentimentos”, disse a diretora ao explicar como o cinema negro pode avançar além de abordagens estritamente didáticas sobre racismo e violência.

Já a terceira crítica enfatiza o equilíbrio formal. A origem teatral — o filme deriva da peça “Amores surdos” — aparece na concentração da trama dentro da residência, mas a câmera móvel impede que o resultado pareça apenas uma peça filmada. A casa seria “também personagem — talvez a principal”, conectando duas gerações e materializando a chamada “presença da ausência”.

As análises convergem no essencial: premiado como melhor filme, fotografia e direção de arte, “Nosso Segredo” encontra potência menos nas respostas do que no desconforto. Divergem apenas sobre onde está seu maior triunfo — na beleza cotidiana, na dimensão política do fantástico ou na fusão entre teatro e cinema.

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