Pró-governo diz que pacto histórico preserva soberania, mas controle dos EUA gera dúvidas
Pró-governo diz que pacto histórico preserva soberania, mas controle dos EUA gera dúvidas
Venezuela e Estados Unidos apresentam o mesmo acordo petrolífero como uma vitória — mas por razões quase opostas. Caracas fala em soberania e recuperação econômica; Washington, em controle majoritário sobre uma parcela gigantesca das reservas venezuelanas.
A presidente interina Delcy Rodríguez afirma que a parceria terá duração de 25 anos e elevará a produção para 1,5 milhão de barris diários em 17 campos estratégicos. A projeção inicial é gerar cerca de US$ 209 bilhões para o governo. Segundo Rodríguez, a Venezuela manteve “a propriedade e a soberania”, recorrendo a capital, tecnologia e experiência estrangeiros para recuperar o setor.
Donald Trump oferece uma leitura diferente. O presidente americano diz que os EUA asseguraram “controle majoritário” sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas, sem custos para o contribuinte do país. A aparente contradição está no centro da disputa: Caracas separa a propriedade dos recursos do comando operacional, enquanto Trump vende o pacto como uma ampliação prática do poder energético americano.
Rodríguez também promete US$ 100 bilhões em investimentos privados e receitas fiscais superiores a US$ 200 bilhões. A Chevron estaria em negociações avançadas para expandir suas operações. Para a ex-ministra de Energia Dolores Dobarro, “se tudo for feito corretamente”, o acordo poderá representar o renascimento do setor petrolífero venezuelano.
Os críticos enxergam riscos maiores. Uma análise aponta que o Estado venezuelano poderá ficar sem função operacional, limitado a receber impostos e royalties. O ex-ministro Ricardo Hausmann classificou o arranjo como inconstitucional e previu “um fiasco para todos os envolvidos”. Em contraste, o ex-embaixador Roberto Smith Perera argumenta que o país precisa transformar reservas paradas em “investimento, tecnologia, produção, empregos, infraestrutura e acesso” ao mercado mundial.
Assim, governo e defensores convergem sobre a urgência de reativar a indústria. Divergem, porém, sobre quem controlará essa retomada — e sobre o preço político cobrado por ela.
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