Superávit no papel esbarra em Bolsa Família congelado e pressão da dívida
Superávit no papel esbarra em Bolsa Família congelado e pressão da dívida
O Orçamento de 2027 chega ao Congresso com uma promessa difícil de equilibrar: colocar as contas no azul sem abandonar a valorização do salário mínimo. O governo celebra a virada fiscal; a leitura crítica aponta um superávit estreito, dependente de receitas e distante do necessário para estabilizar a dívida.
A proposta prevê receitas líquidas de R$ 2,85 trilhões, despesas de R$ 2,83 trilhões e superávit primário efetivo de R$ 18,6 bilhões, equivalente a 0,13% do PIB. Para o cálculo formal da meta, o saldo alcança R$ 83,4 bilhões, mas cai após R$ 64,7 bilhões em deduções permitidas. É a primeira proposta orçamentária com resultado positivo desde a peça elaborada para 2015.
A equipe econômica apresenta esses números como prova de responsabilidade fiscal. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o compromisso “veio para ficar”, enquanto Bruno Moretti, do Planejamento, disse haver “probabilidade muito grande de entregar o resultado na meta”. O governo atribui a melhora, entre outros fatores, à contenção de despesas obrigatórias e a mudanças que devem produzir economia de R$ 8,9 bilhões.
A visão mais cautelosa enfatiza as brechas. Embora a meta oficial seja superávit de 0,5% do PIB, a margem de tolerância permitiria que o resultado final chegasse a déficit de R$ 28,5 bilhões sem violar o arcabouço. Soma-se a isso a pressão da dívida pública, no maior nível em cinco anos, e a ausência de reajuste do Bolsa Família: o valor-base de R$ 600 completará quatro anos sem correção.
No campo social, o contraponto é o salário mínimo projetado em R$ 1.741 — alta nominal de 7,4%, ou R$ 120. O governo destaca o ganho acima da inflação; do outro lado da planilha, cada R$ 1 acrescentado ao piso eleva despesas obrigatórias em R$ 413,2 milhões. A revisão mais recente, de R$ 24, adiciona cerca de R$ 9,9 bilhões aos gastos.
Assim, os dois retratos coexistem: há uma inflexão fiscal relevante, mas ainda cercada por tolerâncias, dívida elevada e escolhas sociais apertadas.
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