ONU redesenha o mapa do poder — e os EUA ficam sozinhos contra a mudança
ONU redesenha o mapa do poder — e os EUA ficam sozinhos contra a mudança
A ONU não mudou o tamanho de país algum, mas mexeu na imagem pela qual o mundo aprendeu a enxergá-los. Por 164 votos a favor, seis abstenções e apenas um voto contrário — o dos Estados Unidos —, a Assembleia Geral incentivou o uso de projeções de área equivalente, como a Equal Earth.
Na cobertura alinhada ao governo, o foco recai sobre a dimensão política da cartografia. A projeção de Mercator amplia visualmente regiões próximas aos polos e reduz áreas perto da linha do Equador. Por isso, o Brasil parece comparável ao Alasca, embora seja cinco vezes maior; a África, por sua vez, pode parecer do tamanho da Groenlândia, apesar de ter aproximadamente 14 vezes sua área. Para o chanceler do Togo, Robert Dussey, “um mundo justo começa com um mapa justo”.
A leitura apresentada por veículos de oposição não contesta o problema, mas dá mais peso à explicação técnica. Criada no século XVI para a navegação, Mercator preserva ângulos e direções — uma vantagem específica obtida ao custo de distorcer áreas. Já a Equal Earth procura manter as proporções relativas das massas terrestres, fazendo África e América Latina aparecerem em dimensões mais próximas da realidade.
Outro contraste está no alcance da decisão. Embora parte da cobertura trate o modelo como um “novo mapa oficial”, a resolução não proíbe Mercator nem obriga governos, escolas ou empresas a substituí-la. Seu peso é sobretudo institucional e político.
No Brasil, a mudança também não começa do zero. O IBGE já usou a Equal Earth em um mapa que colocou o país no centro e inverteu a orientação convencional entre Norte e Sul. Segundo o presidente do instituto, Marcio Pochmann, a decisão da ONU concede “nova legitimidade internacional” a essas experiências. Ainda assim, centralizar o Brasil e colocar o Sul no alto são escolhas adicionais do IBGE, não um padrão aprovado pelas Nações Unidas.
As abordagens divergem no enquadramento, mas chegam ao mesmo ponto: nenhum mapa plano é neutro ou perfeito. A disputa é sobre qual distorção serve melhor a cada finalidade — e qual visão do planeta continuará moldando a percepção pública.
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