ONU quer corrigir o mapa-múndi, mas os EUA veem uma agenda radical
ONU quer corrigir o mapa-múndi, mas os EUA veem uma agenda radical
A Assembleia Geral da ONU colocou frente a frente duas leituras do mesmo mapa. A resolução apresentada pelo Togo, aprovada por 164 países, recomenda a adoção gradual de projeções que preservem melhor o tamanho relativo dos territórios. Seu principal alvo é o uso generalizado da projeção de Mercator, que amplia áreas próximas aos polos e reduz visualmente regiões equatoriais. “Chegou a hora de mudarmos a narrativa”, afirmou o chanceler togolês Robert Dussey. A Ucrânia, uma das seis abstenções, disse concordar com as questões centrais, mas alegou que os modelos sugeridos representam incorretamente territórios temporariamente ocupados pela Rússia.
Washington enxergou algo bem diferente. Único voto contrário, os Estados Unidos classificaram a iniciativa como parte de um projeto ideológico mais amplo e acusaram a ONU de desviar atenção de temas como paz e prosperidade. Para a diplomata Yaryna Ferencevych, resoluções desse tipo ajudam a explicar por que a instituição estaria “perdendo sua credibilidade”. No lado oposto, a União Africana celebrou um “passo histórico” para que o mapa reflita a verdadeira escala e o peso da África.
A disputa política, porém, nasce de uma diferença cartográfica concreta. Criada para navegação, Mercator preserva ângulos e direções, mas faz a Groenlândia parecer próxima da África em tamanho — embora o continente africano seja cerca de 14 vezes maior. A Equal Earth, desenvolvida em 2018 e já adotada pelo IBGE em um mapa temático, prioriza a proporção real das áreas.
Isso não significa que a ONU tenha proibido Mercator ou imposto o mapa brasileiro ao planeta. A resolução não é obrigatória, e a centralização do Brasil e a inversão entre Norte e Sul são escolhas próprias do IBGE. O efeito imediato é sobretudo simbólico: para os apoiadores, corrige uma herança visual; para os críticos, politiza uma ferramenta técnica. O mapa continua sendo uma representação — mas a votação mostrou que escolher uma representação também é escolher uma perspectiva.
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