Delcy acena ao mercado, mas deixa privatizações e eleições sem prazo

A Venezuela prepara a transferência de ativos públicos e amplia o espaço do capital privado. O governo fala em transformação com soberania; críticos destacam a falta de critérios, prazos e garantias eleitorais.
Delcy acena ao mercado, mas deixa privatizações e eleições sem prazo

Delcy acena ao mercado, mas deixa privatizações e eleições sem prazo
A Venezuela pode começar a desfazer parte das nacionalizações promovidas sob Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Em pronunciamento televisionado, a presidente interina Delcy Rodríguez disse ter ordenado a avaliação de ativos públicos considerados não essenciais, com duas possibilidades: venda ao setor privado ou devolução aos antigos proprietários. “Isso já está avançado”, afirmou, sem identificar os bens, possíveis beneficiários ou datas para as transferências.

A leitura crítica é de que o anúncio econômico não pode ser separado das promessas políticas feitas no mesmo discurso. Delcy garantiu que haverá eleições organizadas por uma autoridade eleitoral renovada e sob observação internacional, mas não apresentou um calendário. Também prometeu restringir detenções sem ordem judicial, revisar casos ligados à controversa Lei contra o Ódio e respeitar manifestações pacíficas. A oposição liderada por María Corina Machado e Edmundo González Urrutia defende uma eleição presidencial em 2027.

Já a cobertura alinhada ao governo coloca a medida no centro de uma transformação mais ampla. A abertura alcança petróleo e mineração, inclusive com capital estrangeiro. Segundo esse relato, 61 contratos de hidrocarbonetos já foram assinados sob a nova legislação e outros 44 estão em negociação; tratativas também envolvem ouro, alumínio e ferro. Os detalhes financeiros e operacionais, porém, não foram divulgados.

As narrativas também divergem sobre a mudança de poder ocorrida em janeiro: enquanto uma fonte descreve a operação norte-americana como a captura de Maduro, a outra a apresenta como uma intervenção ilegal. Delcy tenta equilibrar a aproximação com investidores e a defesa da autonomia nacional: “Cooperamos com todos, mas decidimos na Venezuela.”

Há, portanto, um ponto comum — o Estado venezuelano está abrindo espaço para empresas privadas — e uma divergência decisiva: para o governo, trata-se de modernização soberana; para seus críticos, promessas sem listas, critérios ou prazos ainda não configuram uma ruptura concreta.

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