Pró-governo diz que juros altos inflam a dívida, mas plano para limitar a Selic divide governo e economistas
Pró-governo diz que juros altos inflam a dívida, mas plano para limitar a Selic divide governo e economistas
André Lara Resende virou o debate fiscal de ponta-cabeça: em vez de tratar os gastos primários como motor da dívida, atribui aos juros elevados o papel central no desequilíbrio. Seu plano criaria um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, coordenaria as duas políticas e reduziria gradualmente a Selic para 7,5% em 12 meses, antes de buscar uma faixa permanente entre 3% e 5,5%. Para conter choques cambiais, o Banco Central usaria parte das reservas internacionais.
A proposta encontrou apoio político em Gleisi Hoffmann. Ela classificou o artigo de Lara Resende como “fundamental” para enfrentar a pressão sobre a política fiscal. O economista acusa o Banco Central de sustentar uma taxa que seria “a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater” e critica a ênfase no corte de despesas em detrimento do custo da dívida.
Mas o aval de setores governistas não significa adoção oficial. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, fechou a porta para uma intervenção administrativa: “Nenhuma dessas ideias como tabelamento de juros está na mesa do presidente”. Ele também negou que haja reunião agendada entre Lula e Lara Resende.
José Luis Oreiro ocupa uma posição intermediária. Concorda que os juros impulsionam a dívida, mas considera “ingênuo” cortar a Selic tão rapidamente sem reformar a composição dos títulos públicos e regular fluxos de capitais. Seu receio é que a saída de recursos desvalorize o real, acelere a inflação e obrigue o BC a reverter os cortes.
No mercado, a crítica é mais dura: gestores avaliam que juros altos refletem a falta de credibilidade fiscal, em vez de causá-la. Sérgio Vale recorda a experiência de 2012 e prevê “mais depreciação cambial e mais inflação” caso a taxa seja forçada para baixo. Nas redes, Renata Barreto resumiu o ceticismo em tom irônico: “Que façam isso, será pedagógico”.
O consenso termina no diagnóstico parcial: quase todos admitem que os juros pesam sobre a dívida. A ruptura está no remédio — coordenação ousada para os apoiadores, risco de crise para os críticos e hipótese descartada, por ora, pela Fazenda.
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