Governo recua nos desenhos bíblicos, mas disputa sobre critérios continua

O Ministério da Justiça devolveu a classificação livre à animação da Record após admitir falhas na análise. Críticos celebram a revisão, mas questionam por que obras religiosas e outras produções recebem tratamentos diferentes.
Governo recua nos desenhos bíblicos, mas disputa sobre critérios continua

Governo recua nos desenhos bíblicos, mas disputa sobre critérios continua
O Ministério da Justiça restabeleceu a classificação livre do programa “Record Kids – Desenhos Bíblicos”, revertendo a recomendação para maiores de 12 anos. A pasta reconheceu que a avaliação anterior não aplicou integralmente o guia vigente e afirmou que narrativas bíblicas em animações infantis constituem expressão cultural protegida. Segundo o governo, a classificação “não tem caráter de censura” e deve apenas oferecer informações objetivas às famílias.

A revisão também considerou a estética infantil e os atenuantes previstos para conteúdos ligados a rituais, tradições ou costumes religiosos. A série, composta por 36 episódios sobre passagens do Antigo e do Novo Testamento, havia recebido a faixa de 12 anos por conter referências a “atos criminosos, drogas lícitas, violência e estigma ou preconceito”. Entre as cenas mencionadas estão o apedrejamento de Santo Estêvão e a tortura de cristãos no Império Romano.

De um lado, o governo apresenta o recuo como uma correção técnica: faltou analisar a obra em seu contexto e aplicar à tradição cristã o mesmo tratamento reservado a outras manifestações culturais e religiosas. De outro, setores críticos veem o episódio como sinal de incoerência. A comparação mais recorrente é com os desfiles de Carnaval, classificados para maiores de dez anos, e com produções satíricas sobre o cristianismo.

A oposição argumenta que as regras medem violência, drogas e sexo, mas não necessariamente a intenção da obra. Nessa leitura, guerras e mortes presentes em narrativas bíblicas elevam a faixa etária, enquanto sátiras religiosas sem essas cenas escapam dos mesmos critérios. O contraponto é que a classificação avalia elementos objetivos, não a aprovação moral ou religiosa do conteúdo. Ainda assim, críticos sustentam que o caso revelou uma “outra régua” para diferentes produções.

O resultado encerra a restrição sobre a animação, mas não a controvérsia. Governo e oposição concordam que cabe às famílias decidir o que as crianças assistem; divergem sobre se o sistema oferece parâmetros consistentes para essa escolha.

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