Pró-governo diz que dólar e inflação obrigaram BC a travar cortes da Selic

O Copom vê riscos no câmbio e nas expectativas de inflação, enquanto economistas defendem cautela e o setor produtivo alerta para os danos do crédito caro sobre investimentos, consumo e crescimento.
Pró-governo diz que dólar e inflação obrigaram BC a travar cortes da Selic

Pró-governo diz que dólar e inflação obrigaram BC a travar cortes da Selic
O Copom manteve por unanimidade a Selic em 13,75% ao ano e encerrou, ao menos por enquanto, uma sequência de cinco cortes de 0,25 ponto percentual iniciada em março. A decisão veio na primeira reunião após o segundo turno da eleição presidencial, em meio à alta das projeções para inflação e dólar e à redução das estimativas de crescimento.

Para o Banco Central, o câmbio mais depreciado, os choques de oferta e a piora das expectativas aumentaram o risco de novas pressões sobre os preços. A autoridade classificou o atual nível dos juros como “substancialmente contracionista”, mas argumentou que ele é necessário para conduzir a inflação à meta. A projeção do BC para o IPCA no segundo trimestre de 2028 subiu para 3,5%.

O contraponto está na atividade econômica. O próprio Copom passou a enxergar uma “moderação mais acentuada”, sobretudo nos setores sensíveis ao crédito, além de sinais de desaquecimento do mercado de trabalho. Ainda assim, a piora inflacionária falou mais alto, e o comunicado evitou indicar o que acontecerá na reunião de dezembro, defendendo “serenidade e cautela”.

Entre analistas de mercado, prevalece a avaliação de que a pausa era difícil de evitar. José Júlio Senna, ex-diretor do BC, afirmou que, “com a virada das expectativas, não tinha como dar continuidade à queda nos juros”. Outros economistas apontaram a incerteza fiscal, o dólar e o cenário internacional como obstáculos a novos cortes.

Já o setor produtivo vê excesso de conservadorismo. A Confederação Nacional da Indústria sustenta que seria possível reduzir a Selic sem comprometer a convergência da inflação e adverte que manter os juros elevados transfere “o custo do ajuste para as famílias e as empresas”. A Associação Paulista de Supermercados também pediu uma política capaz de controlar preços sem sufocar a atividade.

O embate, portanto, não é sobre a existência dos riscos, mas sobre quem deve pagar por eles: o BC prioriza a credibilidade anti-inflacionária; empresas cobram alívio antes que o crédito caro aprofunde a desaceleração.

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