Pró-governo diz que Leão XIV desafia a saúde e a perda de fiéis em viagem decisiva

Após uma cirurgia contra câncer de pulmão, Leão XIV percorre Uruguai, Argentina e Peru para reaproximar a Igreja de uma região ainda religiosa, mas cada vez menos vinculada ao catolicismo institucional.
Pró-governo diz que Leão XIV desafia a saúde e a perda de fiéis em viagem decisiva

Pró-governo diz que Leão XIV desafia a saúde e a perda de fiéis em viagem decisiva
Três semanas depois de uma cirurgia contra câncer de pulmão, Leão XIV iniciou a viagem mais longa e distante de seu pontificado. O Vaticano transmite confiança: haverá atendimento médico a bordo, e a chefe de comunicação Maria Montserrat Alvar sustenta que a recuperação permite cumprir o roteiro. “A resistência dele é fantástica. O modo como canta é incrível. E só se pode cantar se os pulmões estiverem realmente fortes”, afirmou.

A disposição física, porém, é apenas a primeira prova. Em 11 dias, o papa percorrerá cerca de 31 mil quilômetros por Uruguai, Argentina e Peru, numa região ainda profundamente religiosa, mas menos ligada à Igreja Católica. Pesquisas apontam queda da identificação católica e uma fé mais individualizada. Para o padre Jorge Reinaudo, “não pertencer a uma religião não significa que as pessoas não tenham fé. Significa que vivem a fé à própria maneira”.

É esse contraste que torna o roteiro estratégico. No secular Uruguai, Leão deve defender posições católicas sobre dignidade humana em meio a avanços legais sobre aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo e morte assistida. Na Argentina e no Peru, encontrará governos associados à direita radical, ao mesmo tempo que preserva marcas do pontificado de Francisco: atenção às periferias, diálogo com povos indígenas e defesa ambiental.

A ausência do Brasil também ganhou leitura política. O teólogo Valdinei Ramos Gandra avalia que uma visita logo após disputas eleitorais envolvendo símbolos religiosos poderia ser interpretada como “proximidade ou mesmo apoio político”. Já nas fronteiras, o efeito é menos abstrato: fiéis gaúchos organizaram excursões ao Uruguai, movidos pela expectativa de ver o pontífice. “É uma grande alegria”, resumiu o peregrino Juan Alvez.

Assim, a viagem combina resistência pessoal e urgência institucional: Leão XIV retorna ao continente onde viveu por duas décadas para tentar transformar devoção dispersa em pertencimento — sem escapar das divisões políticas e culturais que atravessam a região.

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