Fora da Faria: Saudades do tempo em que um produto era apenas um produto

Da groselha vitaminada à cerveja proteica, a indústria transforma prazer em desempenho. Que Baco nos proteja de tanta assepsia!
Fora da Faria: Saudades do tempo em que um produto era apenas um produto

O consumo deixou de ser apenas uma experiência de prazer para se tornar um ato submetido à lógica de performance, onde produtos precisam prometer ganhos nutricionais e prevenção. Essa medicalização cotidiana transforma tudo em um ato moralmente aceitável, mas que treina o consumidor a desconfiar do próprio prazer. A vida, por sua natureza, envolve desordem, excesso e risco, e a busca por uma existência higienizada pode levar à domesticação e à perda da intensidade das paixões.

  • O prazer, hoje, precisa de justificativa nutricional e promessas de ganho ou prevenção.
  • O mercado vende alívio preventivo, treinando consumidores a suspeitar do próprio prazer.
  • A vida comum foi capturada por uma gramática clínica, onde tudo deve conter aditivos morais aceitáveis.
  • O dilema de ‘ilegal, imoral ou engorda’ persiste, agora com o crivo da utilidade fisiológica.
  • Produtos como groselha e cerveja foram reformulados para incorporar vitaminas e proteínas, visando o autoaperfeiçoamento.
  • Viver envolve riscos higiênicos, excessos e desordem, que contribuem para o que faz a vida valer a pena.
  • A obsessão por higienizar a existência confunde prudência com covardia e leva a um adeus às paixões.
  • A pedagogia da performance sugere que todo prazer precisa de utilidade e que o excesso é falha de gestão pessoal.
  • Há uma diferença entre cuidado e domesticação, e viver bem não significa vigilância permanente.
  • Momentos de ilegalidade, imoralidade e gula fazem parte da vida, e sem eles, os prazeres mundanos perdem sentido.
    https://www.cartacapital.com.br/blogs/fora-da-faria/saudades-do-tempo-em-que-um-produto-era-so-um-produto/
Write a comment