De Fé em Fé. | E. J. Waggoner | Signs of the Times | 01 de Abril de 1889

Título original do artigo: From Faith to Faith

Autor: E. J. Waggoner

Publicado em: 01 de Abril de 1889 no Signs of the Times

Tradução: biblioteca1888.org

Artigo original (inglês): https://m.egwwritings.org/en/book/1542.1386#1426

Áudio do artigo em português: https://youtu.be/oz1ON-9pYDM?si=J6fXVue6t7UtTbRZ

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DE FÉ EM FÉ

Romanos 1:17 “Porque nele se revela a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá pela fé.”

Esta expressão tem sido objeto de muita discussão erudita entre teólogos, e poucos concordam quanto ao seu significado. O fato de homens eruditos discordarem a respeito dela não deve nos afastar, levando-nos a crer que ela não pode ser compreendida, pois lemos que coisas ocultas aos sábios e entendidos são reveladas aos pequeninos. Se formos simples o suficiente para aceitar o significado óbvio das Escrituras, conforme explicado por elas, não precisamos estar em trevas.

Uma das maiores causas da dificuldade de muitas pessoas em compreender o livro de Romanos, e de fato qualquer outra porção das Escrituras, é a falha em se apegar aos princípios fundamentais e às definições bíblicas. Os homens tentam definir alguns termos de acordo com sua formação teológica e encontram dificuldade em adequá-los ao seu contexto. Então, se em algum momento aceitam a definição bíblica de um termo, não a mantêm, mas atribuem-lhe outro significado na próxima vez que se deparam com ele. Isso só pode levar à confusão.

A causa da dificuldade em compreender este texto é a falha em se apegar à definição bíblica do termo “a justiça de Deus”. Já vimos que é uma expressão que indica o caráter de Deus, e que o Seu caráter está exposto nos Dez Mandamentos. Eles (os mandamentos) resumem todo o dever do homem, que é ser como Deus. A lei, tendo sido transgredida, não pode, por si só, ser perfeitamente representada na vida de qualquer pessoa; e foi por isso que o evangelho foi concebido, para que o homem pudesse encontrar em Cristo a perfeita justiça da lei. O evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, porque manifesta a justiça de Deus. Não apenas a lei — a justiça de Deus — é pregada e sua majestade é sustentada pelo evangelho, mas também é por meio do evangelho que os frutos da justiça se manifestam na vida do crente.

Alguns considerariam a “justiça de Deus” neste texto como sinônimo de “justificação”. Isso não seria um problema, desde que não limitassem a aplicação do texto ao momento da justificação da transgressão passada. É a aplicação da lei em Cristo à vida do transgressor que o justifica. Através da redenção que há em Cristo Jesus, Deus, por sua graça, considera a vida passada do pecador que crê como se tivesse sido, em todos os aspectos, conforme a sua lei. Isso é justificação. É a revelação, ou manifestação, através do evangelho, da justiça de Deus. Mas o texto diz que isso se revela “de fé em fé”; e isso não pode significar outra coisa senão uma obra progressiva de justiça. O versículo ensina que a justiça de Deus se revela de um grau de fé para um grau de fé mais elevado e, consequentemente, que a justiça deve estar sempre aumentando. Isso é demonstrado pela citação que o apóstolo faz para comprovar sua afirmação. Ele argumenta que a justiça de Deus se revela de fé em fé porque está escrito: “O justo viverá pela fé”. A força disso reside no fato de que a vida cristã, que é fruto da fé, é progressiva. A vida cristã é um crescimento contínuo. Pedro diz: “Portanto, amados, sabendo estas coisas de antemão, guardai-vos para que, levados pelo erro dos ímpios, não caiais da vossa firmeza. Crescei, porém, na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” 2 Pedro 3:17, 18. A única maneira de não cair daquilo que temos é crescer. Davi diz do justo que “ele será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas.” Salmo 1:3. Isso significa crescimento contínuo.

Lemos sobre a vereda do justo, que “será como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até à plena luz do dia.” Provérbios 4:18. Mas “o justo viverá pela fé”; portanto, é necessário que a sua fé cresça.

Novamente, Paulo diz aos Coríntios: “Ora, aquele que dá a semente ao semeador também dá o pão para alimento, e multiplica a vossa sementeira, e aumenta os frutos da vossa justiça.” 2 Coríntios 9:10.

Aos Tessalonicenses, ele escreveu: “Que o Senhor vos faça crescer e transbordar em amor uns para com os outros e para com todos.” 1 Tessalonicenses 3:12. E novamente disse: “Rogamos-vos, irmãos, que cresçais cada vez mais em amor.” 1 Tessalonicenses 4:16. Mas a fé opera pelo amor; isto é, o amor é o resultado da verdadeira fé; portanto, o aumento do amor deve ser consequência do aumento da fé.

Aos Hebreus, o apóstolo escreveu: “Portanto, deixando os princípios elementares da doutrina de Cristo, avancemos para a perfeição.” Hebreus 6:1. E na epístola aos Filipenses, Paulo disse: “Não que eu já tenha alcançado a perfeição, ou que já seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o qual também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não julgo que eu mesmo o haja alcançado: Mas nisto faço uma só coisa: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.” Filipenses 3:12-14. Aqui, é apresentada uma busca contínua por uma conquista maior. O chamado de Deus em Cristo Jesus é um chamado para uma vida santa ou justa, pois lemos: “Mas, assim como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver, porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo.” 1 Pedro 1:15, 16.

Esta justiça para a qual somos chamados, e os mais altos progressos pelos quais devemos constantemente prosseguir, é obtida somente pela fé, como Paulo expressa seu desejo de ser encontrado em Cristo, não tendo a sua própria justiça, mas aquela que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que vem de Deus pela fé. Filipenses 3:9. Portanto, visto que a justiça vem somente pela fé, e deve aumentar, segue-se que a fé também deve aumentar. Assim, não foi uma oração vã a que os discípulos proferiram quando disseram: “Senhor, aumenta a nossa fé”. Lucas 17:5.

Que a fé é suscetível de crescimento é claramente declarado pelas Escrituras. Paulo tinha esperança de que, quando a fé dos irmãos coríntios aumentasse, ele seria ajudado por eles a pregar o evangelho nas regiões além deles. 2 Coríntios 10:15, 16. Aos tessalonicenses, ele escreveu que orava intensamente, noite e dia, para poder vê-los e aperfeiçoar o que faltava na fé deles. 1 Tessalonicenses 3:10. E ainda mais tarde, escreveu: “Sempre devemos dar graças a Deus por vocês, irmãos, como é justo, porque a fé que vocês têm cresce cada vez mais, e o amor de cada um de vocês para com todos os outros transborda”. 2 Tessalonicenses 1:3.

Este último texto contém toda a argumentação que apresentamos. A fé deles cresceu e, como consequência, a caridade transbordou. A caridade, ou amor, é o cumprimento da lei. É a manifestação da justiça de Deus e é resultado da verdadeira fé, pois a fé opera pelo amor, e a única justiça que será aceita quando o Senhor vier é aquela que vem pela fé em Cristo, “a justiça que vem de Deus pela fé”. Sendo este o ensinamento das Escrituras, não há razão para não entendermos Romanos 1:17 exatamente como está escrito: A justiça de Deus se revela, ou se manifesta, de fé em fé.

Um ou dois exemplos notáveis registrados nas Escrituras ilustrarão isso. O apóstolo registra que “pela fé, a meretriz Raabe não pereceu com os incrédulos, porque acolheu os espias em paz”. Hebreus 11:31. Este caso tem causado tropeços a alguns que não refletiram cuidadosamente sobre ele. É sabido que Raabe mentiu aos homens enviados pelo rei de Jericó para prender os espiões (ver Josué 2:2-6), e imaginam que, ao salvá-la, Deus tenha dado uma recompensa pela mentira e que, às vezes, mentir seja correto. Nenhuma das duas afirmações é verdadeira. Raabe foi salva não por causa de sua mentira, mas por causa de sua fé. Ela, assim como todo o povo de Jericó, tinha ouvido falar de como o Senhor secou as águas do Mar Vermelho e como guiou os israelitas; mas somente ela, entre todos os habitantes de Jericó, acreditou que a mão do Senhor estava envolvida na quetão e que Ele havia dado a terra de Canaã aos israelitas. Ela tinha uma fé simples, mas era totalmente ignorante da lei de Deus. No código de moralidade pagã, mentir era considerado uma virtude, e ela não conhecia nada melhor. Mas sua fé tornou possível sua salvação e a levou a um lugar onde ela poderia aprender a justiça. Como consequência natural, sua fé em Deus aumentaria à medida que ela aprendesse mais sobre Ele. No caso dela, temos um exemplo claro da revelação da justiça de Deus de fé em fé.

O mesmo se aplica a Cornélio. Ele temia a Deus com toda a sua casa, dava muitas esmolas e “orava a Deus sempre”. Como consequência, um anjo foi enviado a ele, instruindo-o a chamar Pedro, que lhe diria o que deveria fazer.

Em resumo, é a fé que nos aproxima de Deus. Se primeiro crermos que Ele existe, Ele se revelará a nós mais plenamente. Se nos alegrarmos nessa luz e caminharmos nela, nossa fé aumentará, e isso trará mais luz. Assim como aconteceu com Raabe, acontece com todos. Deus não nos concede uma bênção porque somos justos, mas para que nos tornemos justos. Quando nossa fé nos leva a Cristo, é para que possamos aprender sobre Ele. À nossa fé acrescentamos virtude e conhecimento. Mas, como a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus, segue-se que quanto mais realmente conhecermos — aceitarmos — a palavra de Deus, maior será a nossa fé. E assim, crescendo diariamente em fé, os justos progridem de força em força, até que o alvorecer do dia perfeito os conduza à presença imediata de Deus.


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