Brasil entra no tabuleiro da IA: soberania digital ou clube de regimes autoritários?
Brasil entra no tabuleiro da IA: soberania digital ou clube de regimes autoritários?
O Brasil acaba de se posicionar no novo tabuleiro geopolítico da inteligência artificial, mas o movimento é visto, ao mesmo tempo, como aposta em soberania digital e como risco de alinhamento a um bloco de regimes autoritários. A filiação à WAICO, organização liderada por Pequim, acentua a nova guerra fria tecnológica.
De um lado, a esquerda vê a iniciativa como chance histórica para o Sul Global romper a dependência das Big Techs dos EUA. Em Xangai, mais de 30 países assinaram um “acordo histórico de cooperação em inteligência artificial liderado pela China”, com o Brasil em papel de destaque na nova arquitetura geopolítica da tecnologia. A China se apresenta “na vanguarda da tecnologia”, articulando uma “terceira via regulatória” que preserva soberanias nacionais e contrasta com o “monopólio normativo” das corporações ocidentais.
Xi Jinping tenta emplacar a narrativa de multilateralismo: a IA não deve ser “monopolizada por um pequeno grupo de países ou empresas”, e sim gerida por mecanismos de benefício compartilhado, diz ao anunciar a criação da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial, com 29 países fundadores e sede em Xangai. Na mesma conferência, ele prega que a IA seja uma “sinfonia de cooperação internacional”, e não o domínio de um único país. Para o Sul Global, promete 5 mil vagas de formação em IA, centros de cooperação regionais e sistemas de alerta de desastres, para evitar “nova injustiça histórica” digital.
Do outro lado, a direita enxerga outro filme: o Brasil estaria se juntando a uma “aliança de IA da China que reúne países autoritários”, lista que inclui Rússia, Belarus, Cuba, Venezuela, Nicarágua e Mianmar, todos criticados por violações de direitos humanos e perseguição a opositores. Para esse campo, o discurso de cooperação “centrada no ser humano” serve de verniz para um eixo tecnológico sino-russo em choque direto com os EUA.
Sem Washington à mesa, a escolha brasileira ganha peso estratégico: passo de emancipação digital ou salto em direção a um novo bloco de poder pouco afeito a liberdades civis?
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