Liberdade - Matot Masei

A liberdade que se escreve na pedra
Liberdade - Matot Masei

A liberdade que se escreve na pedra

  • Quando o mundo moderno fala em liberdade, quase sempre quer dizer ausência de amarras, fazer o que se quer, quando se quer, sem ninguém mandando. O judaísmo enxerga de um jeito quase oposto, e é justamente por isso que ele tem algo tão profundo a dizer sobre o assunto. A história fundadora do povo judeu é a saída do Egito, a passagem da escravidão para a liberdade, mas repare que Deus não diz a Faraó apenas “deixa o meu povo ir”, e sim “deixa o meu povo ir para que me sirva”. A liberdade não é o fim da linha, é o começo de um caminho. Não se sai da servidão do Egito para o vazio, se sai para receber a Torá no Sinai, para trocar a submissão a um tirano pela dignidade de viver sob uma lei justa que se escolhe cumprir. Os sábios brincam com as palavras das Tábuas da Lei e dizem para não ler charut, gravado na pedra, mas cheirut, liberdade, porque ninguém é tão livre quanto aquele que se governa a si mesmo.

  • E é aqui que a parashá desta semana, Matot-Masei, ilumina tudo. Matot abre com as leis dos votos, o poder que a palavra de uma pessoa tem de criar obrigação. Um ser humano fala, e aquilo que ele disse passa a valer, vira compromisso sagrado. Pode parecer estranho começar um tratado sobre liberdade falando de como uma pessoa se amarra com a própria boca, mas é exatamente esse o ponto: a liberdade mais alta não é a do impulso solto, é a de quem tem tanto domínio sobre si que consegue empenhar a própria palavra e sustentá-la. O escravo não tem palavra que valha, quem manda nele é outro. O homem livre é dono do que promete. Autodomínio é a forma mais madura de liberdade, e o resto da nossa cultura reconhece isso ainda que não perceba, porque quem não consegue governar os próprios apetites nunca é de fato livre, apenas troca de senhor.

  • Masei, a segunda metade, é a lista das quarenta e duas etapas da travessia do deserto, cada acampamento, cada partida, cada recomeço. É o retrato de que a liberdade não acontece num instante, é uma jornada com avanços e recuos, com paradas que parecem estagnação e que na verdade são preparação. E no meio dessas leis surgem as cidades de refúgio, um dos institutos mais civilizatórios da Antiguidade, onde até quem matou sem intenção era protegido da vingança de sangue e tinha direito a julgamento. Ali está o embrião de uma ideia que o mundo levaria milênios para formular por completo: a de que a liberdade só é real quando garantida pela justiça e pela lei, não pela força bruta de quem grita mais alto ou golpeia mais rápido.

  • Essa raiz atravessa toda a cultura judaica e, de lá, boa parte das liberdades que hoje o Ocidente considera óbvias. O Shabat foi a primeira declaração de que nenhum ser humano, nem o servo, nem o estrangeiro, nem o animal, é uma máquina de produção, e que descansar é um direito, não um luxo. O ano do Jubileu ordenava “proclamai a liberdade na terra a todos os seus habitantes”, e não é coincidência que essa frase, tirada do Levítico, esteja gravada no Sino da Liberdade na Filadélfia. A libertação periódica dos escravos, o perdão das dívidas, a ideia de que todo ser humano é feito à imagem de Deus e por isso tem um valor que nenhum poder pode apagar, tudo isso é a matéria-prima da qual a dignidade humana e os direitos individuais foram depois esculpidos.

  • Talvez seja essa a lição que Matot-Masei nos deixa para carregar na semana: que a liberdade verdadeira não é fazer o que se quer, é ter palavra, é caminhar mesmo quando a travessia é longa, e é construir uma casa onde a justiça protege até o mais frágil. O Egito, no fim, não é só um lugar no mapa nem um tempo na história, é qualquer coisa que nos escraviza por dentro, e a saída dele nunca é um salto, é uma jornada de quarenta e duas etapas que cada um de nós ainda está atravessando.

Write a comment