A Web3 Não Foi Feita para Você
Assim como os programas espaciais do século XX, a inteligência artificial não tem um único caso de uso — um “Apollo 11” — capaz de justificar o custo estratosférico e a euforia religiosa que a envolve. Até o momento, ela só destruiu.
Em primeiro lugar, matou a internet. Não conseguimos mais encontrar nada. O Google e seus correlatos já haviam tornado a descoberta autônoma uma arte perdida; agora, com a avalanche de conteúdo sintético, a internet de 2025 é um cemitério de indigentes.
Se em 2020 a Web 2.0 ainda agonizava, hoje já pode receber a lápide.
Tornamo-nos servos voluntários dessas próteses cognitivas. Quando o “free tier” for finalmente cortado — e ele será —, talvez a ficha caia. A única coisa que ainda adia o golpe é a guerra tecnológica com a China e o pavor de que, sem migalhas grátis, os usuários voltem a vagar pela rede aberta, gerando tráfego orgânico e ferramentas que ignorem o novo leviatã. Razão pela qual já inserem anúncios dentro das respostas.
Não tardará até venderem o topo das consultas como leilão secular, e a busca livre na internet se tornar relíquia de museu. Experimentem: peçam, numa consulta, a qualquer grande modelo que cite, com precisão, as fontes exatas que usou para gerar a resposta que acabaram de receber. Não obterão. Receberão links quebrados, invenções plausíveis ou, na melhor das hipóteses, 3% da verdade.
Isso prova que já se alimentam de uma internet paralela, uma dark web sintética construída só para máquinas. A resposta-padrão para esse gap de fontes é “está tudo nos datasets”. Perguntem, então, quem curou esses datasets, com que viés, com que dinheiro e de que forma. Silêncio sepulcral.
Não somos convidados na nova internet. Somos a matéria-prima. Aliás, sempre fomos.
Na minha trincheira — documentações técnicas de APIs, frameworks, linguagens de programação —, o material que consultamos, pois ninguém mais consegue carregar o mundo na cabeça como nos anos 1990, está cada vez mais sofrível. Exemplos de uso omitidos, explicações simplórias e do tipo caminho feliz, sem troubleshooting, erros grotescos que não seriam perdoados há cinco anos. Parece vitrine: algo para o primata olhar e achar que ainda manda. Nos bastidores, os dados fluem em protocolos como MCP, otimizados para crawlers, fora do nosso alcance.
O plano é transparente e brutal: capturar todo o conhecimento humano, escondê-lo dos humanos, servi-lo em alta velocidade às máquinas, controlar as máquinas e as plataformas que geram o próximo ciclo de conhecimento, e depois cobrar caro pelo acesso.
Logo será impossível saber qualquer coisa sem passar pelo pedágio de uma IA. Esse sempre foi o objetivo final. Se o pedágio será em dinheiro, em atenção ou em dignidade, é detalhe administrativo. Para nós restarão as jaulas douradas das redes sociais, todas conectadas aos mesmos modelos, doando de graça o último conteúdo humano genuíno para treinar os algozes que nos denunciarão ao Estado ou nos substituirão.
Eventualemente a entropia virá — modelos alimentando-se de modelos, veneno sintético em veias sintéticas, até o colapso em mediocridade absoluta. Mas antes disso, quanta inteligência e criatividade humana terá sido incinerada?
E a pergunta que me persegue: a quantas gerações de incapacitados intelectuais a espécie consegue sobreviver antes de esquecer até como se faz a pergunta?